Morte

Assinar uma autorização de eutanásia foi das coisas mais difíceis que já fiz. Mesmo com o quadro irreversível. Mesmo com as convulsões vindo uma em seguida da outra. Mesmo sendo uma cachorra velhinha, cega de um dos olhos. Ainda era a Serena que respirava.  Lembro do dia que a trouxe, com apenas um mês de vida. Cheguei no horário do almoço, os meninos já de uniforme para a escola, e disse: - Hoje ninguém vai pra aula! Que festa. Ela foi a primeira de muitos bichos da nossa casa. Faz doze anos.

Comentários desativados em Morte

Cheiros

A surpresa me esperava atrás da porta de vidro do banco. No instante em que entrei, fui assaltada pelo cheiro de limpeza recente. Mistura de álcool e cloro pairando no ar condicionado. Interrompi os passos a caminho do caixa eletrônico. Estanquei no meio da agência, atenção e olhos capturados por outro tempo. Era exatamente o mesmo cheiro da UTI onde esteve internado o meu filho, que nasceu prematuro. O olfato rasgou uma distância de 14 anos. Senti de novo a intensidade e a contradição daqueles dias.

Comentários desativados em Cheiros

Sonhos

Tenho um sonho repetido em que estou nadando em uma piscina com muito pouca água. Me esforço, mexo braços e pernas, mas não saio do lugar. Freud explicou que todos os sonhos são realizações de desejos, ainda que se apresentem distorcidos. Mas como me debater como uma baleia encalhada pode ser a concretização de uma vontade? É que nós, neuróticos, curtimos o desprazer. Nosso desejo sempre arrasta junto uma censura, que vocifera pra gente: Você não pode nadar de braçada na vida!

Comentários desativados em Sonhos

Cozinhar

Há dias em que preciso cozinhar. Não comida. Mas sentimentos. Não adianta o sol me chamando lá fora. Não adianta a culpa pelas tarefas relegadas me empurrando. Fico na cama, dia e noite. Sem ligar a música, sem abrir nem um livro. Penso, durmo, acordo, repenso e pego no sono tantas vezes até que os sonhos se misturem com a vigília e, quem sabe, revelem à consciência alguma coisa sobre as minhas verdadeiras razões.

Comentários desativados em Cozinhar

Tiradentes

Não sei o que me faz amar tanto essas cidades velhas. Será por causa do limo entre as pedras, lembrando a permanência que nunca tive? Serão as janelas, que não tomam distância dos passantes? Ou serão as cortinas bordadas à mão, soprando que ainda há tempo a perder? Podem ser as vigas, resistindo idealistas. Ou as portas carcomidas, submissas ao tempo.

Comentários desativados em Tiradentes

Desnatureza

Eu gostaria de encontrar formas suaves para você enxergar isso. Mas é duro, é cruel, é o contrário do que manda a natureza (e a gente gostaria de crer, não é mesmo, que a natureza garante ordem nos comportamentos). Mas não garante. E você foi vítima. Vítima de um pai, vítima de uma mãe, vítima de alguém que não desejou ou soube lidar com esse papel, vítima de quem nem deveria ter o direito de exercê-lo.

Comentários desativados em Desnatureza

O pau

Nas praias baianas, cocada, quebra-queixo e cuscuz perderam a vez. Também já não são tantos os vendedores que oferecem castanha de caju, ostra e camarão. O sucesso do comércio ambulante nesta estação é outro: o pau de selfie. Já não é novidade tecnológica, mas, agora, custa mais barato que um picolé, em várias cores e material vagabundo, vindo direto da China. E, já que são férias, por que não se dar ao desfrute?

Comentários desativados em O pau

Tango

Tocava em uma fita k-7, num gravadorzinho do meu pai, aquela música que entrava na minha alma de criança e ia passando as unhas por dentro, numa sensação misturada de dor e prazer. Eu não entendia bem as palavras, mas adivinhava que se tratava de amor. Prendia a respiração no ritmo sincopado e podia sentir a vertigem de rodopios. Só bem mais tarde soube que as garras sedutoras partiam de um instrumento chamado bandoneon e a voz, que se tornou familiar para mim, era de Carlos Gardel.

Comentários desativados em Tango

Querida Oprah

Sabemos que sua influência e dinheiro interferiram definitivamente na eleição de Barack Obama. Mas, desta vez, desejamos mais.   Desejamos que você empreste sua pele negra. E não é como competente atriz para atuação em mais um filme sobre a Casa Branca.  O que precisamos é da mulher de carne e osso que revele si mesma, aquela de cabelo maltratado, como nas fotos de antes da fama, que você mesma faz questão de exibir.

Comentários desativados em Querida Oprah

Outra vez

Terminei mais um namoro. Muitas pessoas próximas a mim nem se surpreendem mais com meus inícios ou fins. Algumas desfrutam dos meus casos amorosos como uma nova temporada de uma série. Casamentos foram três, com papel passado e festa. No último, quando entreguei o convite a um tio meu, ele falou: - Desta vez vou estar viajando, mas no próximo eu vou.

Comentários desativados em Outra vez

Fim por enquanto

Sem mais por hoje

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com