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A parte boa

Oitenta anos do Roberto Carlos nesta semana. Eu nem sabia quando no domingo cedo pedi: põe a música do café da manhã.
Nunca me aconteceu. Ele pediu que eu esperasse na cama, acendeu o forno para assar o pão de queijo. Para mim, porque ele não gosta de comer cedo.
Eu era criança quando o Roberto cantava que ia pedir o café e servir com carinho, com abraço e chama acesa. Faz tantos anos. Será que passou o tempo de ouvir o rei? Será que romance assim tem prazo de validade?
Eu não esperava. Ele comprou a rosca e garantiu que estava novinha. Comprou o bolo de laranja industrializado, mesmo sem gostar que eu coma “esses venenos”. Fiquei no quarto escutando o barulho dos pratos.
Meu pensamento voou. Procurou alguma coisa para se agarrar lá fora. Alguma âncora para estacionar no ontem. Alguma isca para pular para o amanhã. Como foi difícil trazê-lo para o travesseiro e aguardar. E só escutar o Roberto falar: “vou ficar por aqui”.
Se houvesse algum dilema, algum conflito, alguma dor, eu não teria esse problema. Meu corpo e minha alma já estariam mergulhados, deixando-se afetar inteiros. Porém o que vinha servido na bandeja era a alegria e ela não é simples de desfrutar.
Bom seria degustar a alegria feito manga madura, metendo os dentes, sujando o rosto e puxando os fiapos do dente com sorriso tingido. Mas não foi assim que me ensinaram. Provo a alegria em goles urgentes, uma satisfação agitada, como a de quem se queima com café quente.
Café quente, suco, requeijão e a canção dizendo “temos tantas razões pra ficar”. Tantas, depois de tantos desencontros, tanta falta, tanta demora. Anos para chegar a essa refeição, servida com entrega e recebida sem reservas.
Que desafio esquecer a memória da fome e só aproveitar a parte boa. Permanecer inteira no café, sem sustos de jantares de antes, sem medo de perder o almoço de depois.
Ainda bem que o Roberto ajuda. Vou passar a semana ouvindo o rei.
“Na desordem do quarto esperar… e te amar na manhã…”
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