Amor líquido

Amor líquido

Começa como uma torneira que não fecha bem. Pingando, insistente, convoca a presença, sem que o cérebro se dê conta. Um apelo baixinho, quase um cochicho.

Difícil perceber onde fica a margem. Num suspiro, os pés se afastam da terra firme. Pisam um leito instável e macio. A água sobe as pernas. Escapa uma palavra molhada. Os olhos escorrem confissão.

Já é mergulho. Dispensam-se as roupas. Os dedos plantam nascentes. Se movem lentos, para conter a pressa da corredeira. Buscam uma mão que estava jogada longe do corpo, trazem tudo ao encontro.

A língua rega a terra, calma, dedicada. Silêncio de profundezas, que, devagar, infiltram, entranham, encharcam. Ritual feito de urgências, cuidadosamente derramadas.

Uma gota de suor pinga quente, atravessa a altura do rosto e chega fria à pele. Nesse percurso, qualquer distância é vencida. Conflitos diluídos, medos lavados.

Só depois de todas as resistências derretidas, o regato vira chuva e se joga em pura transparência.

Então, o amor flui terno como a água do chuveiro. Em braços abertos, na saída do banho, uma toalha abraça toda a umidade. Fontes protegidas até a próxima sede.

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