Avesso

Avesso

Minha mãe, que costura com esmerado capricho, diz que devemos olhar o avesso das roupas para saber a qualidade delas. Pois eu gosto de olhar o avesso das pessoas. Me atrai saber de que modo se alinhavou a vida de cada um. Como foram arrematados os fios soltos de história. Gosto dos nós e do lado menos vistoso, que revela o verdadeiro feitio. Nesse caso, muitos remendos podem indicar grande valor.

De uns tempos pra cá, estou todo o tempo enxergando meio avesso. A oftalmologista disse que não tem cura. Quando fixo os olhos em uma superfície clara, vejo constelações dançando sobre a imagem, mil planetinhas se movendo. Uma noite flutuante que sobreponho à luminosidade. Nem estranhei, acho que sempre vi mais sombras e galáxias do que o recomendável.

Muitos avessos me fazem feliz. Ao contrário das mães higienistas, adoro o hálito dos meus filhos quando acordam. Muitas horas de confinamento bacteriano e pura identidade.

Gosto de passar os dedos na contramão da barba feita do meu namorado. Só pra sentir a suavidade roçando o ríspido. Atrito de todos os amores.

Sou avessa a certas convenções também. Por exemplo, o julgamento de um mortal pelo número de seguidores que possui nas redes sociais. O que me interessa é: se essa pessoa estiver passeando num lugar aberto, sem nada de comestível nas mãos, um cachorro de rua a elege e a acompanha? Esse sim é um seguidor fidedigno para atestar o que vai dentro de um indivíduo.

Surpreende a algumas pessoas que eu também percorra o lado oposto do que muitos esperam de um psicanalista, escrevendo e revelando, em vez de me obrigar a confinar segredos. Claro, o segredo dos outros estará protegido. Mas, eu sou como as plantas de mangue, com as raízes fora do solo. Quanto mais expostas, mais troca com o ambiente, mais vitalidade. Quanto mais se revelam, mais fortes elas ficam.

Sou assim, planta aérea. Respiro pelas raízes. Preciso trazer a profundidade à luz do sol. As manchas e sonhos para a retina. O lado de dentro para o foco. Sou meio enviesada, confesso.

E, acredite, confessar é um jeito de costurar o meu próprio avesso.

Comentários