Busca

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Fim de semana de busca em Brumadinho. Não aquela busca dos corpos, que durou mais de 400 dias para atestar a perda de quase 300 vidas. Minha busca era de alma.

Me enfiei na água gelada da nascente limpinha, mas não pude deixar de perceber os negócios. Muitos fechados, definitivamente. A pandemia? pergunto. Não, a Vale, respondem. Sumiram os turistas e sumiram até os trabalhadores, iludidos pela indenização paga pela mineradora, que já já acaba e os atira de novo ao desamparo. Nenhuma construção, nenhum novo caminho. Desabafa uma mulher: deram um cala-boca no povo.

Mas a linda vista ainda está lá, em diversas direções. Procuro um horizonte para os olhos, para ampliar o espaço no peito. Recomendam um mirante. Porém, o lugar está cheio de carros. Cheio de personagens de selfies, afrontando o silêncio e destoando do verde. A profundidade dos vales lá embaixo não vence a superfície das visitas. Quem ali dedicaria um minuto de preocupação para defender essa beleza?

Pegamos uma trilha. Espero que as lambadas do mato nas pernas derrotem as bobagens vaidosas. Flores, pedrinhas, morro depois de morro para me distanciar das desimportâncias. Suor para me retirar as fomes pequenas. Com tanto azul no céu, quase me esqueço das mesquinharias.

Até que a paisagem se abriu num susto, um rasgo na montanha para esconder uma barragem de rejeitos. Uma de tantas. Um cenário de ameaça, obra de engenharia calculada para retirar ganhos e devolver prejuízos. Como uma cena desabitada pode conter tanta violência? Escondi a vontade de chorar.

Era um fim de semana para buscar um pouco de alma e a senti ali, feita de minério de ferro, como escreveu Drummond. Sob seu peso me sentei ao fim da caminhada, sabendo que minha leveza só se pode fazer na alienação da minha origem, da minha condição de mineira, brasileira e habitante dessa terra de tanta exploração e tão pouca verdade.
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