Carnaval

Carnaval

“Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”, foi o que Chico escreveu. Pois vou fazer assim: vou guardar o carnaval para quando os dias cinza chegarem.

Quando tudo estiver aborrecido, quero me lembrar desse espírito folião. Redimido debaixo de sol ou de chuva, sem queixas.

Quando me enraizar nas dificuldades, paralisada, quero me lembrar da criança voando junto com a serpentina, do giro leve em espaço apertado.

Para quando o caminho se tornar custoso, quero guardar o empurrão desse surdo dando pancada dentro de peito. E apreender os repiques de tamborins para o momento em que for preciso me aprumar e começar de novo, sem demora.

Para quando me sentir isolada nas minhas angústias, quero ter a memória do abraço de uma pessoa desconhecida, irmanada pela folia.

E, nas horas que a vida ficar automática e artificial, vou me lembrar de sentir o calçamento da rua sob os pés e o suor fazendo caminho na pele fervendo.

Vou guardar a sinceridade arregalada para usar contra a hipocrisia de todos os meses. Acreditar que é possível pôr brilho em dias comuns. Reservar a energia do ajuntamento para combater o bloco do eu sozinho.

Vou recolher feito confete um pouco dessa mistura democrática, um tanto do desejo assumido e uma mão cheia dessa pausa permitida – para usar quando precisar de alegria e de perdão.   

Vou guardar o carnaval para atravessar o ano como se fosse avenida. Sorrindo e dançando, olhos fechados para o tumulto em volta, concentrada no som alma, emprestando a voz e o corpo para aquilo que ressoa mais fundo em mim.

Comentários
Fechar Menu
WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com