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Carta a jovem amante

Nunca recebi tarefa tão difícil quanto a que você me pede. Quem lhe sugeriu que me perguntasse sobre o amor? Certamente não foi sua mãe, que, desde a infância, fugia desse tipo de assunto, me sonegando a cumplicidade de irmãs. Terá sido o seu pai, sarcástico, querendo lhe desencorajar os afetos? Ou sua avó, que, no fundo, gostaria de ter experimentado ao menos uma faísca da combustão que me fez abandonar a vida numa capital, emprego público e até o posto de madrinha de um menino adorável como você?

Certo, você não é mais uma criança e a prova disso é que já está seduzido pela ideia da paixão. Porém, já lhe aviso, nem pensamentos nem palavras pagam o bilhete de acesso a esse sentimento. O preço é mais caro e exige fome, insônia e alguma vertigem.

Lembra quando você era pequeno e girava rindo, de braços abertos, até cair no chão? É bom, não é? Mas, quando a gente vira adulto, fica com tanto receio do tombo que se esquece do prazer. Por medo da queda, renunciamos ao frio na barriga.

Foi assim comigo. Não posso lhe mentir que escolhi corajosamente a hora e a forma de me entregar à tontura. Não. Foi mais como uma dessas tempestades que desabam por aqui, antes mesmo que as donas de casa subam as panelas e se coloque o cachorro a salvo num terreno alto. Veio pra mim como uma cheia ousada, que sobe as pernas das palafitas, vai molhando a intimidade das casas e se espalha, apagando as margens do rio. Quando me dei conta, meus limites haviam sido lavados. Desapareceu o traço que continha meus planos razoáveis e entrei num avião para viver no lugar mais selvagem do país e descobrir terras desabitadas de mim.

O francês, de quem você já deve ter ouvido falar, não foi o meu primeiro homem. Houve outros, mas eles se enfileiravam na lista de tarefas que eu cumpria com pouco entusiasmo. Boa aluna, boa filha, mulher correta, sem pressa de me tornar mais nada. Não aprendi a desejar mais. Deve ter sido por isso que, quando aqueles olhos transparentes derramaram tanto interesse sobre mim, me senti afogada. Puro desconforto. Passei meses escorregando em encontros com o pesquisador de laboratório no refeitório da universidade. Tomei a maior distância que pude daquela investigação de cientista experiente com palavras e intenções incompreensíveis.

Até que adoeci de feridas na pele. Resistentes, inexplicáveis. O chefe da secretaria, cansado das minhas faltas ao trabalho, mandou que eu procurasse o professor do departamento de biologia, que estudava plantas curativas. E lá parei, bem nas mãos do gringo. Se você me perguntar como pude me apaixonar naquele dia, só consigo lhe explicar que foi pela vagareza, pela forma lenta como ele me tocou. Lembro dele mudo, respiração quase imperceptível de hálito bom, toda atenção deslizando nas pontas dos dedos vagarosos. Na demora do exame, coube silêncios que nunca tinha dividido com alguém. E toda aquela dedicação, concentrada e minuciosa, se tornou nossa forma de intimidade, que repetimos até a última noite juntos.

Quando deixamos São Paulo, eu já me sentia grávida, mas não fiz exame para comprovar. Não levei certezas na bagagem. Dali por diante, foi tudo como o abraço escuro do Rio Negro. No início, era em esteira que dormíamos, sono realizado. Ele, extasiado pelo cenário. Eu, pura natureza. Neste calor que dispensa roupa, vivíamos a um suspiro da vontade e, vou lhe dizer, a decência não vale de nada ao amor. Não conheci os enjoos da gestação, mesmo passando dias inteiros em viagens de barco. Sentia por dentro os refluxos, que só faziam ondular mais o meu desejo.

Não sei dizer como a diferença da língua foi superada entre nós, nem com os ribeirinhos e indígenas. Talvez a explicação seja a mesma do início, os gestos, com suas mensagens invisíveis, tomaram o lugar das palavras. Penso que a paixão é como açaí, deixa mancha em quem desfruta. Tínhamos as bocas marcadas de sonho e querer e, talvez por isso, fomos recebidos com sorridente condescendência. Quando nossa filha nasceu, qualquer rastro de desconfiança que ainda pudesse haver foi desfeito. Quem escolhe para o filho uma terra de nascimento só pode proteger esse lugar. Alguns moradores perceberam isso e passaram a contribuir com a pesquisa, revelaram segredos da floresta. A partir daí, os estudos evoluíram e o instituto cresceu.

Vieram novos convênios e grupos de pesquisadores de vários países. Com um desses grupos, chegou o temporal. Jovem, com um jeito de fugir com os olhos e se atirar em sorrisos.  Acho que meu marido foi pego de surpresa ao ouvir, depois de anos, a língua materna dita de forma perfeita e natural. Nas horas que passavam juntos, ele conseguia esquecer que era estrangeiro. Aquela companhia conterrânea acordou nele a saudade de tudo o que lhe era familiar, saudade do que ele próprio havia sido. Rapidamente, ele se apaixonou pelo rapaz explorador.

Sim. Um outro homem. Não havia acontecido antes na vida dele. O golpe nos atingiu de formas diferentes. Eu me tornei toda uma deriva. Ele se dividiu, entre culpa e rompante. Eu não queria, mas percebia a mudança. Adivinhei que alguém sempre disposto a saber mais e a conhecer o novo não se furtaria ao inesperado. Voltei a sentir as queimaduras de ferida, mesmo com a pele saudável e bronzeada de sol do norte. Os carinhos lentos que ele me dedicava à noite não curavam o ressentimento pela vigorosa ligação que crescia entre os dois. Eu pude antever o tombo.

Um dia, ele me disse: “Preciso ir”. Eu respondi: “Ainda bem, porque eu preciso ficar”. Eu não suportaria retornar naquele momento. E não encontrei até hoje motivos para voltar. Acho que aí seria eu a estrangeira. Penso nas crianças da escola onde leciono… aqui é tão difícil conseguir um professor. Penso na minha filha, acostumada ao ar verde.

Se eu posso perdoá-lo? Nem sei se um dia cheguei a odiá-lo. Como condenar alguém que sabe olhar tudo a fundo e trazer os mistérios à superfície? Alguém que empresta seus olhos examinadores para que o outro se reconheça? Não posso negar que, pela lupa dele, me tornei visível.

Permanecer aqui é me abrigar no colo da natureza para tratar essa saudade. É minha forma de atestar que vale a pena escolher e – quem sabe – esperar o amor. É como se a paixão tivesse me exilado numa ilha. Cheguei em canoa, a maré baixou de repente e eu fiquei encalhada, sem calçados para fazer, a pé, o caminho de volta pela areia quente da praia. Quem sabe numa próxima estação outro alagamento venha me resgatar…?

Então, meu querido, não tenho planos de estar aí para presenciar a trilha que você fará até a paixão, mas torço para que seja profunda como a mata e selvagem como seus nervos. Talvez isso seja justamente o que seus pais gostariam de evitar para você, afinal foi o que evitaram para si mesmos. De qualquer forma, acredito que você pode intuir a naturalidade das forças que nos arrastam e, pela intensa curiosidade que demonstrou, com palavras já infiltradas de poesia, posso imaginar que você até já identificou a correnteza. Portanto, se minha resposta deve caber em apenas uma carta, digo que abra os braços e atire-se. Quem faz questão de chão firme não pisa o território do amor.

Com carinho,

Da sua tia.

 

 

 

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