Cheiros

Cheiros

A surpresa me esperava atrás da porta de vidro do banco. No instante em que entrei, fui assaltada pelo cheiro de limpeza recente. Mistura de álcool e cloro pairando no ar condicionado. Interrompi os passos a caminho do caixa eletrônico. Estanquei no meio da agência, atenção e olhos capturados por outro tempo. Era exatamente o mesmo cheiro da UTI onde esteve internado o meu filho, que nasceu prematuro. O olfato rasgou uma distância de 14 anos. Senti de novo a intensidade e a contradição daqueles dias. Cada vez que eu entrava naquela ala hospitalar, cuidadosamente higienizada, carregava apreensão e esperança intraduzíveis. E aquele aperto me voltou à garganta no meio do tumulto bancário.

Sou refém deste acordo feito entre o nariz e a memória: te dou um odor, você me devolve uma emoção.  Por causa desse pacto, não gosto, por exemplo, de café. Seu cheiro, durante muito tempo na minha infância, era tirânico. Vinha da fábrica do bairro que fazia torrefação e se impunha sobre tudo. Sinônimo de brutalidade amarga.

Felizmente, as narinas também são caminho para distinguir pessoas queridas no emaranhado de lembranças e me apego aos aromas para transformar cenas passadas em sentimentos que não desejo que passem.

Criança, eu aspirava com vontade a fumaça do cachimbo que meu tio fumava ao receber o espírito de um preto velho. Ela enchia o ar com perfume de folhas e não deixava nenhum vestígio no hálito dele. Cheiro de mistério, bondoso e protetor.

Quando voltava da escola, sentia o aroma das panelas da Maria, nossa vizinha, tomando o corredor de entrada do prédio. Ela ainda vive lá e acredito que cozinha os mesmos pratos. Passo pela calçada e posso farejar conforto.

O cheiro da minha mãe é aquele que eu sentia deitada embaixo da sua asa, nariz metido no colo dela, sufocando e me recusando a deixar aquele abrigo.

O cheiro do meu pai é ferroso, tem a firmeza do seu caráter.

O cheiro dos meus filhos sai das têmporas. Cálido e íntimo. Me faz sentir vontade de incorporá-los outra vez.

Só o meu próprio aroma não sou capaz de reconhecer. Preciso de alguém que traga vestígios de mim no corpo ou nos sentimentos. Por isso, gosto tanto das relações. Elas me oferecem aquilo que só posso ser e saber através dos outros, sem que minhas narinas ou mesmo a consciência se deem conta.

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