Colo

Colo

É dia das crianças e eu não comprei um presente. É a primeira vez, em vinte anos, que a palavra criança não representa o sol principal em torno do qual faço minha órbita. Sim, as crianças são capazes de iluminar uma vida. É como se viessem numa caixa escrita “segunda chance” e a gente acredita que, por meio delas, vai reparar tudo o que fez falta na nossa história. E ainda vai receber em troca os melhores beijos e abraços.

No último fim de semana, estava com meus adolescentes e minha cachorra numa trilha. Procurava, sem encontrar, o caminho para um riacho. Eu estava empolgada, mas eles não. Virou uma guerra. Eles não podiam entender a graça de andar com mato pinicando as pernas. Eu não podia entender como podiam recusar o presente, que eu achava que oferecia: passeio em família, bicho e natureza. Fiasco. Eles não são mais crianças, não vão mais se prestar a incorporar os meus desejos.

Essa constatação me fez sentir um pouco só. Percebi que a maternidade me protegeu, por muito tempo, de me saber assim. Quando alguma coisa muito dura me atingia, eu só pensava em voltar para os meus meninos, para a tarefa exigente de mãe, que me fazia sentir guardiã de algo especial.

Desde muito cedo, eu sonhava em ter filhos, como se pudesse passar direto da minha infância para a deles, sem nunca cortar o laço com essa época de fantasia. Crianças acreditam em mágica e acreditam até que podem chorar sem medo da fragilidade.

Tudo isso faz falta. Mas o que mais me faz falta é um gesto, um movimento. Dobrar o corpo, estender os braços, tensionar os músculos e recolher pra perto o calor deles. Sentir, com orgulho, o peso de alguém que podia considerar minha responsabilidade, um desafio que eu, enganada, pensava caber todo nas minhas mãos.

Carregar uma criança é imaginar que suportamos nosso destino. Descê-las do colo é encarar os limites. Encarar que me perco na trilha, que perco a esperança, que perco as forças.

Descê-las do colo é saber que não há beijo ou abraço que possam me distrair para sempre de um caminho que é só meu.

Descê-las do colo é tornar a mim mesma uma adulta.
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