Conexão

Conexão

– Olha, Meu Bem! Que linda! apontou a mulher.

O homem parou para olhar. Era uma sombrinha vermelha de bolinhas brancas. Produto de contrabando da China, exposto pelo vendedor ambulante na rampa de acesso à estação do metrô.

O que faz um homem, pouco interessado em estampas de poás, deter-se no fluxo de trabalhadores, voltando para casa no fim do dia, para observar uma mercadoria tão comum? E nem estava chovendo!

Ele levou a mão ao material barato. E virou-se para a mulher solícito, pronto para receber as impressões que ela iria oferecer. Escutou. Ouviu o temperamento entusiasmado dela naquela banalidade. Não compraram. Foram embora mais juntos do que antes.

O amor de verdade pisa o chão da vida. Exige partilha de tempo e de espaço. E também de algumas bobagens, que fazem sentir que somos vistos por inteiro.

Podemos nos contentar, por algum tempo, com comentários e curtidas em fotos bem feitas. Podemos tentar medir a importância de uma relação pelo volume de megabytes trocados. Podemos até migrar de encontros digitais para encontros pessoais igualmente sem tato. Porém, como explicou Freud, o amor é um tributo que todos teremos que pagar à vida. Uma hora, nem toda anestesia tecnológica poderá esconder a falta de interesse e de confiança. Nem todo individualismo será suficiente para negar que carecemos de acolhimento e entrega. 

A intimidade é um encontro de rios subterrâneos. Só acontece na profundidade. É inacessível para quem fecha comportas ou se defende dos mergulhos. Só é possível quando dedicamos a alguém nossa presença honesta, com palavras ou silêncios atentos. Com inteireza, que tanto pode nascer dos anos de convivência, como de frestas abertas de improviso na alma.

A intimidade acontece em delicadas invasões, quando cedemos espaço para o outro, como fez o homem com sua mulher diante de uma sombrinha de camelô. Não foi um gesto de educação. Foi uma autorização de vínculo.

Dias depois, vi outra cena. Dessa vez, entre desconhecidos. Mas lá também estava a disponibilidade para a conexão.

Uma mulher madura passou, arrastando os olhos de um senhor bastante idoso. Ela foi atenciosa:

– Como vai? Tudo bem com o senhor? 

– Vou indo, minha filha, temperando…

Ela sorriu e se permitiu o encontro:

– Quanto mais temperadinho melhor!

Eles se entenderam. Cumplicidade de pensamentos. Ela pisou o território dos desejos dele. Apenas alguns segundos. E se juntaram suas correntezas tão humanas.

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