Cortes

Cortes

Éramos uma equipe afinada, eu e meu irmão. Ele, usando cerol, cortava as linhas dos outros meninos. Eu, caçula sem juízo, corria pelas ruas para pegar as pipas que caíam.

Eu sei, era uma época selvagem. Nada de conscientização sobre o risco de soltar papagaio perto da rede elétrica. Nem havia campanhas para proteger o pescoço dos motoqueiros. Também não havia tantos motoqueiros.

Na divisão de tarefas entre nós dois, ele era o gestor, eu era a operação. Ele dava as ordens e ficava com as funções de raciocínio elaborado, como fazer os nós especiais que prendiam pedacinhos de plástico na rabiola. Eu estava sempre por perto à disposição. Lembro que, uma vez, cedi minha blusa para ele embrulhar e triturar os pedaços de vidro que eram usados na mistura cortante do cerol. Nem preciso dizer como a blusa ficou…

Temos aí uma questão de gênero, grita o meu lado feminista. Mas não sei se ele era dominante por ser macho ou se pela devoção de que gozam os primogênitos. Provavelmente, as duas coisas juntas.

O fato é que, pela lógica familiar, designação cultural do patriarcado e temperamento, tenho muita dificuldade com os cortes.

Numa ocasião, um chefe me deu uma bronca: “Assim não dá! Você é muito mãezona com o pessoal!” Pois se sou mãezona com a equipe de trabalho, que tipo de mãe sou com meus filhos de verdade?

Estou pronta para apoiar, cuidar, receber, como se ampara uma pipa abandonada antes que ela atinja o chão. Para isso, posso correr, me esticar e me desdobrar sem queixas. Também vou para o enfrentamento se necessário (afinal, muitas vezes, lidei com a turma que disputava os papagaios). Estou pronta para todo tipo de muvuca insana, desde shows da Beyoncé até reuniões de pais na escola. Não fujo dos porquês da pequena, dos debates adolescentes, nem das conversas sobre os temas mais incômodos.

Mas… os cortes. Essa parte eu não treinei. Aqueles que põem um ponto final numa trajetória. Rápidos, firmes, sem se prolongar na dor ou na explicação. Ah, Deus… como me custam!

Já está claro, nos dias de hoje, que a tal “função paterna” descrita na psicanálise é uma adjetivação infeliz. De acordo com essa teoria, seria assim: a mãe nutre e o pai enquadra. Mas, já se sabe esses são papéis simbólicos e que homens e mulheres podem cumprir a tarefa de impor à criança a lei e a norma.

No caso de pais separados então, em que a educação não se faz a dois no dia a dia, essa postura não é apenas uma possibilidade. É uma obrigação. Por isso, a exerço, é claro. Caso contrário, meus filhos seriam infelizes e intoleráveis.

Mas confesso: assumo a responsabilidade relutante, sempre combatendo aquela vontade de voltar para o meu lado preferido da brincadeira, o lado do resgate.

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