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Dia da Mulher

Querida avó, nunca nos falamos, mas percebi que preciso me confessar a você.
É que há esse homem. Esse homem que me subjuga, com quem mantenho uma relação abusiva por tanto tempo.
Imagino seus olhos, tão pretos quanto os meus, dizendo que me compreendem. Afinal, a vida com meu avô era cheia de violências, não é? E eu pude amar o meu avô e não pude amar você. Me perdoe.
Não foi só porque você se foi cedo e não nos conhecemos. Foi também porque sua memória era de alguém passiva demais, que perdeu a voz, que perdeu a graça. Minha mãe acha até que o desgosto te matou de doença tão jovem.
Por isso, fui criada para nunca ser como você, para nunca aceitar, nunca depender, nunca ficar em qualquer lugar que me causasse dor. Meu dever, em sua honra, era fazer o que a você foi proibido. Estudar, dirigir, trabalhar, namorar e me divorciar. Fiz tudo isso em grande quantidade.
Porém, apesar de ter conquistado para mim o chão que te faltou, também há na minha vida um homem que me rouba a paz. E dele não consigo me livrar como dos homens de carne e osso.
Ele está por dentro. É um tirano instalado. A voz dele me julga, me exige mais e me cobra até em sonhos. Diz que eu tenho que ser produtiva, conquistar metas, saber as respostas e que devo fazer tudo isso sem pedir ajuda.
Penso que, agora, minha avó, sua feição é de dúvida. Escravidão sem algoz você não tinha considerado, não é? Pois veja no que deu tanto combate. Neutralizado o inimigo do lado de fora, fui encontrá-lo em mim mesma, talvez porque eu não saiba ser sem uma espada nas mãos.
Preciso da sua ajuda. Você pode me dizer sobre como é a vida sem poder? Como é a vida sem nada a provar? Como se faz para existir sem buscar resultados? Como aprendo a me entregar?
Nesse território de conflito que é a vida das mulheres, você foi refém e eu soldado. Ambas arrancadas do lar, longe das nossas verdades. Hoje, vou fechar meus olhos, que se parecem com os seus, e tentar pensar nas meninas que fomos um dia. Fomos iguais antes da guerra. E podíamos sorrir sem medo.
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