Drácula

Drácula

Temos um gato preto chamado Drac. O nome é uma redução carinhosa de Drácula. Associação natural por causa da cor do pelo. O que não sabíamos quando o adotamos, ainda filhotinho, era que ele, assim como o príncipe das trevas, tinha um temperamento excêntrico.

Drac não aceita ser carregado no colo, não gosta de ser abraçado ou cerceado de qualquer forma. Ele faz rodeios, ronrona, dá cabeçadas pedindo atenção, mas só aceita receber carinho de um jeito: nós em posição horizontal, de forma que ele suba no nosso peito e garanta uma condição de domínio. Se ele vê um de nós deitado, seja dormindo, usando o celular ou lendo,  pula em cima e se instala sem cerimônia, com nosso pescoço bem ao alcance das suas garras e dentes.

Se eu fosse supersticiosa poderia dizer que a culpa foi do nome, mas temos também uma cachorra chamada Serena, que não é nada calma…

O que o Drac me fez pensar foi no comportamento de certos machos alfa da espécie humana. Pessoas que pretendem um controle perfeito da relação. Elas não negociam novas posições, escolhem papéis e se fixam neles. Não há disposição para variar de acordo com o interlocutor, com a época da vida ou com o andamento da convivência.

O desejo ou a necessidade do outro não estão no horizonte desses seres. “Achei que você tinha entendido como eu sou”. “Sou assim e não vou mudar”. “Fui sincero desde o início”.  E a sinceridade é usada para se esquivar das responsabilidades afetivas.

Essas criaturas são como os famigerados contratos de adesão, descritos no Direito. As cláusulas são estabelecidas unilateralmente, não cabe discussão. A única opção é submeter-se integralmente às condições sem questionar.

E por que nos submetemos? Freud já dizia que o narcisismo inacessível dos gatos nos encanta.

Mas quanto custa a presença ao nosso lado de um espécime apaixonado por si ou por suas convicções? É bom lembrar que, ao se relacionar com um egoísta, as prioridades serão sempre as dele e as definições do que é certo também.

Um gatinho cheio de personalidade é adorável. Uma pessoa que consegue seu prazer ou sua tranquilidade às custas do desconforto do outro é vampiresca.

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