Duendes

Duendes

Quando eu era adolescente e dirigia por aí sem carteira de motorista, preguei no vidro do carro um adesivo escrito: “Eu acredito em duendes”. De lá pra cá, deixei de ser uma infratora do código trânsito, mas não deixei de acreditar em coisas intangíveis.

Entretanto, de vez em quando, faço o exercício de duvidar das minhas crenças e imaginar a vida sem elas.

Talvez não haja duendes e nenhuma energia emanando das pessoas ou da natureza.

Talvez não haja inteligência alguma por trás da sucessão de acasos, que tentamos costurar com linha forte.

Talvez a humanidade não caminhe em um projeto de evolução moral.

Talvez não haja solidariedade entre nós, mas apenas uma aproximação interesseira.

Talvez até mesmo a misericórdia seja uma invenção, escondendo a vaidade de quem deseja reconhecimento.

Talvez não haja um lado certo da luta e sejamos apenas animais individualistas sob imposição da lei do mais forte.

Talvez a beleza seja eu que invente. Como imagino o vento da infância que a bicicleta traz. O cheiro de descanso que vem com a chuva. O gosto de intimidade que um beijo tem.

Arte e amor podem ter sido estratégias que criamos para arredondar as quinas cortantes do mundo, um disfarce para as rupturas.

Talvez não haja sangue, território ou time de futebol que nos reúna. Mirabolamos conexões pra fugir da solidão.

Mudança e esperança podem ser apenas palavras que rimam e não promessas para o futuro.

Justiça pode ser apenas uma utopia para nos fazer suportar a dor.

Talvez a verdade seja só cumprir a sina, atravessar na faixa. Dar comida ao corpo e dar corda ao relógio.

Talvez idealistas e sonhadores sejamos só loucos, machucando as mãos, dando socos no dispositivo de emergência, tentando parar um trem que nos transporta para um destino ordinário.

Talvez seja tudo como esse verão escaldante, sem sopro de ilusão.

Talvez. Mas teimo em acreditar que não.

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