Esperançar

Esperançar

Hoje faz um ano do desfecho de uma história dolorosa para nossa família. Um acidente com churrasqueira e álcool na área de lazer de um prédio. Várias pessoas feridas. Meu padrasto perdeu sua filha. A netinha de 11 anos ficou órfã e com algumas queimaduras.

Me preocupei em como ele ia atravessar essa data. Ele, que faz parte da minha vida há 20 anos, como um segundo pai (uma ostentação da minha parte, já que tenho pai vivo).

Fomos à roça. Chamamos de roça o terreno pequeno com um barracão, árvores bonitas, algumas galinhas e uns vira-latas. A casa vai sendo feita devagar, no limite que o dinheiro dá. Os galhos carregados no limite que as forças permitem. E o mato cresce viçoso, muito mais rápido do que a capina dele dá conta.

Olho em volta e vejo tanta coisa para fazer. Ansiosa, tento imaginar quanto custa contratar uma empresa, que traga máquinas para resolver tudo rápido.

Mas, então, escuto meu padrasto e vejo que o rápido não tem nada a ver com o que esse projeto significa. Sem nenhuma urgência, ele pergunta para minha filha onde ela quer que ele construa uma gangorra. Ele diz: Futuramente, a gente coloca uma tela em volta da quadra. Futuramente, aqui, a gente faz uns banquinhos. E cada vez que ele diz “futuramente”, ele se apropria de um pedaço do futuro. 

A tarefa que ele escolheu agora foi fazer tijolos de concreto para construir um caminho de passagem para os carros. Ele mesmo fez as formas de madeira e vai enchendo uma a uma para conseguir os blocos, que não são caros e poderiam ser comprados em milheiro. O tal caminho vai demorar a ficar pronto, mas, talvez, se demorar seja o maior desejo de quem vê chegar os 80 anos de idade e não quer se retirar da vida.

Observei meu padrasto dar batidinhas com a colher de pedreiro para ajeitar a massa de concreto dentro das formas e me lembrei da velha frase: “É no balanço da carroça que as abóboras se ajeitam”. Assim ele fez. Se ajeitou à viuvez precoce para criar quatro crianças e manter três empregos. Para nossa sorte, se ajeitou a uma nova família na maturidade. Se ajeitou ao grande baque do acidente no ano passado. Sem arroubos, sem resistir, com serenidade. 

Sorridente, ele faz planos para reunir a família na chácara toda pronta. Já houve quem dissesse que, nesse ritmo, talvez ele não chegue a desfrutar tanto quanto deseja. Mas isso não importa. O que meu padrasto faz não é aguardar pela conclusão das obras. O que ele faz não é esperar. É esperançar.

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