Inferno

Inferno

Eu sou este bicho atingido pelo fogo. Trago a pele crestada por esses incêndios todos. Ataques contra animais e pessoas.

Estamos ambos intoxicados. Ele, pelas queimadas. Eu, pelas mentiras. O que se fala não se escreve. O que se escreve não se prova.

Áreas de conservação já não conservam nada. E assisto queimar a esperança de que as escolas sejam nossa última unidade de preservação.

O coelho tem os pés em carne viva, afinal, cortaram matas e verbas de fiscalização ambiental. Cortaram também recursos para proteger as mulheres da violência. Feridas vermelhas. Um país ardendo num mapa vermelho, como o sol de prenúncio ruim, que ardeu no céu essa semana.

O bicho corre desesperado atrás de refúgio, enquanto toca o alarme da emergência climática, solenemente ignorado. Eu pretendo não correr, mesmo vendo a fuligem da democracia chamuscada pousar no meu nariz.

O animal conhecia caminhos para os riachos que havia por aqui. Não os encontra mais. Eu também temo não conseguir localizar, em pouco tempo, as pequenas nascentes de pesquisa, de diversidade e de proteção.

Aumento da temperatura, tempo seco. Em consciências secas o ódio alastra. E não faltam os criminosos que jogam fósforos em cidades, igrejas e redes sociais. Acendem injustiças e veem crescer, sem culpa, as chamas furiosas do individualismo, consumindo a palha frágil das relações sociais.

Meus olhos, de verem crescer a miséria, estão abrasados. As lesões ameaçam devastar meus nervos, inflamados de sentir ódio todos os dias, do governo, do mercado, dos negócios.

O bicho, dessa vez, sobreviveu. E nós vamos nos salvando. Mas não estamos conseguindo resgatar tantos da devastação. Será possível reconhecer o lugar de indiferença aonde chegamos como habitat natural? Será o destino da espécie brasileira viver em cativeiro?
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