Lama

Lama

Lama, rejeito, limbo, todos nós temos por dentro.

Viver deixa resíduo. Restos de experiências que não conseguimos lidar. Sentimentos que se tornam sedimento. Substrato angustiante, depositado desde muito cedo.

É possível passar uma vida inteira se atirando à correnteza só para não pisar o leito lamacento do próprio rio. Arrastados pelo fluxo, pela pressa ou pelas tarefas para evitar o fundo e o confronto com as emoções pegajosas.

Fugir do lodo escuro é algo que algumas crianças fazem desde muito cedo. São os pequenos, muito inteligentes, que decidem não chorar e não pedir ajuda. Desenham armas, portas trancadas e cadeados. Assumem um papel dominador, avarento ou bravo para não se lembrar de que há neles algo de movediço e dolorido. Para os pais, pode ser muito confortável ter um filho assim, autônomo e independente, que vai se virar muito bem com as responsabilidades. Porém, no futuro, não saberão ser responsáveis com os próprios afetos e desejos.

Para pessoas de qualquer idade, não lidar com a insegurança sombria é uma aposta perigosa. É como encher uma barragem de rejeitos, instável como a das mineradoras, e construir uma casa aos pés dela. Qualquer hora, surge uma trinca, um imprevisto, uma perda, que destrói o planejamento e arrasta com violência toda a estrutura da personalidade.

É mais prudente drenar a sujeira aos poucos. Trabalho contínuo e pouco gratificante, já que nunca estaremos completamente vazios ou lavados.

Como operários, teremos as mãos manchadas. Trabalhos de escola, projetos profissionais, relacionamentos, filhos… tudo sairá com nossas digitais impressas em lama.

É inevitável, somos humanos. Quanto mais cedo abraçamos a tarefa, menos custosa ela será. É como brincar no barro. Quem se entrega, ganha anticorpos e fica menos vulnerável aos ataques que, nesse caso, vêm do nosso próprio interior.
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