Linhagem

Linhagem

Minha mãe tem um quartinho de costura, que é um mafuá, onde disputam espaço panos, computador, livros, fotos e um mural para bilhetinhos com flores nas bordas, que ela desenha. Nesses dias de feriado, com horas livres para serem bem gastas, me deu de ficar ali.

– Mãe, cadê a rede?

Foi preciso empurrar a mesa de cortar tecido e tirar coisas penduradas nos ganchos para esticá-la. Ela me trouxe uma almofada, um lençol com cheiro gostoso e me deixou só. Ou melhor, me deixou com a companhia familiar da bagunça dela, que me habita desde sempre.

No mês passado, ela conseguiu encontrar tempo na rotina de mil tarefas para costurar o vestido rosa de bolinhas que minha caçula queria para o aniversário. Como fez para mim vestido de formatura, de casamento e mantinhas de flanela para cada um dos meus bebês. Como a avó dela fez para ela saia de pregas em algodão estampado. A mesma avó parteira, que fez nascer alguns de seus netos. A alegria de encarregar-se do bem-estar dos outros alinhavou as histórias das mulheres que vieram antes de mim e já posso reconhecê-la nos meus filhos. Não se pode subestimar o que as mães retransmitem da mãe que tiveram. Para o bem e para o mal.

Acabei de ler, de uma só vez, o belíssimo livro “O amor que sinto agora” de Leila Ferreira. Um rasgo no coração para revelar como a trama das mulheres da família dela criou, junto com os laços de afeto, prisões para a alma. Quem acompanha Leila na sua travessia corajosa e libertadora não consegue ficar indiferente às armadilhas da própria linhagem.

Minha mãe viu minha avó se submeter sem reagir a muitos sofrimentos, e aquelas feridas se instalaram sob sua pele. Quando nasci, sua única filha mulher, ela já me colocou nas mãos uma espada para atacar a opressão com a seguinte mensagem: “Seja forte e independente. Não fique onde se sinta machucada, esteja pronta para ir embora”. Então, porque minha avó não soube partir, eu tinha a obrigação de me retirar quando as dores se impusessem.

Depois de deixar muitos trabalhos, relações e interesses, percebi que o conselho da minha mãe não servia para todas as situações. Há dores que não podemos evitar e que podemos até escolher viver.  Permanecer e suportar também pode ser sabedoria, construção. Mas me custou muito entender essa medida. É que o amor sem medida da mãe dita o funcionamento do nosso mundo de forma desproporcional. Carga afetiva demais. E a gente abraça a herança de forma absoluta e passa a vida repetindo sem sentir: Viu, Mamãe? Fiz o que você disse.

Tudo isso me faz temer muito pelos meus filhos, mergulhados sem defesa nos meus conflitos desde o útero. Tão aconchegados aos meus excessos e faltas quanto eu no quartinho da minha mãe.

Temo e suspiro. Não posso evitar esse capricho da natureza humana. Só posso torcer para que usem o amor que receberam como ferramenta para mudar o que não lhes faz bem.

Espero que se alimentem da memória dessa costura de cuidado que se faz há gerações, mas espero – ainda mais – que sejam capazes de riscar os seus próprios moldes.

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