Lótus

Lótus

Já dizia o Gil: “Tudo permanecerá do jeito que tem sido”. O mundo não vai ser novo quando acordarmos de manhã.

Vai continuar havendo motivo para nos indignarmos, dentro de casa, na esquina vizinha ou na desordem mundial.

Arbitrariedades que alimentam reclamações, retrocessos que impõem desânimo. Tudo isso vai ter também. Sempre. Em toda parte.

Nossas contribuições para a política, para o meio ambiente ou para os humores à nossa volta não serão suficientes para transformar os cenários do dia para a noite. São sementes que, talvez, a gente nem chegue a ver germinar.

Não iremos correr por campos de trigo ensolarados, livres de tudo o que nos dói. No curtíssimo tempo de uma existência, o máximo que poderemos fazer é aprender a florir nos pântanos, como faz a flor de lótus ou a sua prima brasileira, a vitória-régia.

Não se trata de fugir das situações ou relações complicadas, mas de entender como proteger-se da lama. O desafio é emergir das circunstâncias mais escuras e manter as pétalas limpas.

Aonde nos levará bradar contra a sujeira, sem que isso signifique esforço pessoal pelo que é belo e justo? Gastar tempo e energia apenas apontando os erros pode nos afogar. Temos que estender nossas hastes além da superfície, sobreviver ao ambiente e, se for possível, contribuir para que ele se torne menos hostil.

Quando comecei minha carreira de repórter de televisão, com pouco mais de 20 anos, eu acreditava que o melhor caminho para mudar o mundo era levar, ao maior número possível de pessoas, as ideias que eu, onipotente, julgava boas.

Agora, como psicanalista, sei que só com muito trabalho e alguma sorte se atinge de verdade uma alma. E descobri que, para mudar o mundo, precisamos, primeiro, aprender a lidar melhor com o que o mundo é.

Lição da flor de lótus. Pé no chão consciente e sonhos que crescem em direção ao sol.

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