Mãe

Mãe

Uma colega me contou que, certa vez, a mãe dela ganhou um único bombom de presente. Não comeu. Levou para casa, dividiu em partes iguais e distribuiu entre os quatro filhos. Me perguntou se eu também sou assim com minhas crianças. Não sou, respondi. E ai deles se pegarem do chicletes que fica na minha bolsa. Ela ficou surpresa e disse que deviam cassar minha carteirinha de mãe. Pois é… minha opção maternal não é de abnegação, mas de prazer.

Aos nove anos de idade, eu adorava tomar conta dos meus primos menores. Ficava orgulhosa quando elogiavam meu jeito de saber carregar, trocar fraldas, dar mamadeira e entretê-los. Mas havia um momento que minha dedicação não era suficiente. Era a hora que eles exigiam a mãe. Minha tia se aproximava e eles se esqueciam de mim, estendendo para ela braços e olhares apaixonados. Então, com inveja, registrei: há gratificações que só as mães têm.

Sendo mãe, posso reivindicar para mim parte do talento e das conquistas dos meus filhos. Posso cometer sérias injustiças, que eles ainda vão procurar motivos para me absolver. É muito privilégio! E vitalício. Imagine que as músicas que eu ouço hoje, e que meus filhos acham chatas, um dia irão virar uma memória preciosa para eles.

Tem um preço? Sim. Cada vez que o número da enfermaria do colégio aparece na tela do meu celular, morro e vivo de novo. Mas vale a pena. A recompensa que meu ego sente, por tê-los meus, é incomparável. Só algumas almas franciscanas, como a mãe da minha amiga talvez, estão livres de esperar um retorno desse investimento de vaidade. Não é o meu caso. O tamanho da minha prole não é o tamanho do meu desprendimento. É o tamanho da minha fome de amor. Por isso, minha relação com os meninos é de proveito, não de sacrifício. Estou fruindo dos benefícios exclusivos desse cargo.

Lembro de quando minha mãe me cobria de noite para dormir. Depois que ela saía do quarto, ainda que eu sentisse calor ou desconforto, permanecia imóvel na cama, do jeitinho que ela me deixava. Como se, ao mudar de posição, fosse derrubar a mágica que ela colocava com suas mãos em mim.

Eu queria me tornar mágica também, por isso escolhi ser mãe.

Comentários