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Mães

Um agricultor experiente ensinou a um amigo meu, que me repassou a lição:
“Maldito o dente que come a semente”.
O ditado se refere ao cuidado de guardar uma parte da colheita para o futuro, para o próximo plantio. Quem tem a gula de comer ou vender toda a safra interrompe o ciclo de riqueza da terra.
Pois achei que essa sabedoria serve bem a nós mães, que somos lavradoras de gente. Quantas mães ferem o curso natural da vida cravando os dentes na história dos filhos.
Maldito o dente da mãe faminta de atenção que faz os filhos viverem para alimentar seu narcisismo.
Maldito o dente da mãe controladora que transforma os filhos em obedientes soldados da sua ordem.
Maldito o dente da mãe mortificada que condena os filhos a tentar preencher sua infinita insatisfação.
As crianças são sementes para serem atiradas adiante no fluxo das gerações. Porém, algumas encolhem-se tanto para se adaptar ao outro, que acabam renunciando à potência. Outras brotam, entretanto não reconhecem as próprias folhas, porque acostumaram-se demais às podas. E há aquelas que bravamente chegam a dar frutos, mas nunca estão felizes com o que geram, porque atendem a um lavrador insaciável. Todas, sementes presas nas mordidas do passado.
Como semente que todos somos, precisamos nos perguntar se estamos produzindo algo pessoal e singular. Ou estamos ainda dedicando nossa energia a matar a fome de alguém da nossa infância.
Como mães, as perguntas são outras e também nada fáceis de responder: Atribuo à próxima geração o que eu deveria resolver na minha própria sementeira? Exagero nas cercas? Exagero no adubo? Minha gula – de carinho, de comando, de conflito – está engolindo meus filhos?
Um filho que atende à própria natureza questiona, desafia, incomoda, erra e acerta vigorosamente e nos faz sentir safra antiga, nos impõe um lugar atrás na passagem do tempo. Aí, então, da posição de lavrador sábio que nos cabe como mães, podemos olhar para ele e dizer: este é semente inteira!
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