Maratona

Maratona

Nesta semana cada um dos meus filhos deu um passo novo. A mais velha começou um estágio, o primeiro trabalho dela. Meu menino iniciou o ensino médio. E a pequena passou a estudar de manhã.

Nos preparamos como pudemos para essa segunda-feira. Tênis lavados, material nas mochilas, documentos assinados em envelope. Cartão de ônibus para uma, óculos para outro, lanche da caçula. Um milhão de conselhos: Olhe, tenha paciência, no início do estágio você pode se sentir pouco produtiva mesmo. Preste atenção, a escola agora vai apertar, não vai deixar para estudar no fim do ano. Fique calma, você vai logo encontrar amiguinhas para brincar no recreio.

No resto do ano, não vai importar se esquecerem a lapiseira ou a escova de dentes, se usarem uma roupa ou uniforme mais velhos e até se chegarem em cima da hora. Mas, no primeiro dia, tanta expectativa envolvida, precisava dar tudo certo.

Foi difícil acalmar os espíritos no domingo à noite e chegar a um acordo sobre o horário que os despertadores tocariam. Era como como se, às seis da manhã, fossem todos disparar numa maratona.

E, além do calor dos ânimos, havia o calor desse verão vingativo. Teve disputa para saber quem ficava com qual ventilador, confusão de cachorros e gatos que pareciam sem lugar, até que, finalmente, todas as luzes se apagaram. Elas num quarto, ele no outro, e eu de olhos abertos no escuro, rezando para dar tudo certo.

Minutos de silêncio depois, a pequena se levanta, abre a porta do irmão e diz: Vem dormir com a gente!

Ele não entendeu. Não tem o costume de fazer isso. Seria preciso carregar o colchão, levar roupas de cama e arrastar os móveis para caberem os três juntos. Explicou toda essa dificuldade para ela e perguntou: Por que você quer que eu durma lá?

E ela, muito segura do seu motivo, disse:

– Porque você vai crescer! E não vai mais querer fazer isso.

Fiquei rindo sozinha, pensando em como ela captou a onda de transformação que ia nos empurrando. Ele não atendeu à vontade da caçula. Talvez já tenha crescido.

Pensei, então, em qual seria a mudança que eu teria que fazer para acompanhá-los nessa segunda marcante. E percebi que não havia mudança destinada a mim. Meu papel agora é o de estabilidade.

Aprendi isso em um antigo texto de Khalil Gibran, em que ele compara os pais a arcos e os filhos a flechas vivas. Chega um tempo em que o melhor que podemos oferecer é permanecermos firmes. Para que eles voem longe.

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