Metáfora

Metáfora

Estive procurando descobrir porque alguns textos que escrevo atraem muito menos interesse do que outros e desconfiei que o problema é com as metáforas. E, antes que você desista de chegar ao fim, por eu ter usado esse termo das aulas de português, me deixe explicar a metáfora como eu a aprendi aos 9 anos de idade.

Minha professora me deu para ler o livro “O urso com música na barriga” de Érico Veríssimo e mandou que eu anotasse a frase mais bonita. Então, escolhi essa inesquecível: “O sol pintava moedinhas de ouro no chão”. Que maravilha! disse a querida Tia Maria Helena. E me mostrou como as palavras, usadas de um jeito incomum, podem fazer a gente criar coisas. O sol não era um pintor e não havia moedas de verdade no bosque. Mas podíamos imaginar a luz entre as folhas, sombras dançando e as manchas amarelas luminosas na terra. Era mágico!

Mas esse é um recurso literário que só interessa a escritores e leitores, você pode argumentar. Porém, acho que pode ser mais do que isso. Tomar uma coisa como representação de outra é uma habilidade que diferencia nós humanos dos outros animais e deveria ser prestigiada. A capacidade de inventar significados é o que permite, por exemplo, amar alguém que está distante ou desejar algo que não se toca com as mãos.

Imagino que a resistência aos discursos mais simbólicos pode ser sinal de um empobrecimento da nossa experiência, e não apenas uma questão de leitura. Nesses tempos em que tudo é ostensivo e revelado, vamos ficando literais, amarrados à obviedade concreta e cheios de julgamentos absolutos.

Imagine que, quando uma criança começa a entender uma ironia, uma piada, uma expressão de duplo sentido, ela também está se abrindo para aceitar que os fatos são mais complexos do que podem parecer. Se interpretações diferentes são possíveis, incluímos a ideia de alteridade, de abraçar a vivência de cada um. E descobrimos ainda que os conteúdos subentendidos podem ser, de fato, os mais importantes.

No filme “O carteiro e o poeta”, Pablo Neruda, grande escritor chileno, ensina a um carteiro o que é uma metáfora. E o que o homem simples aprende não é apenas uma figura de linguagem, mas uma forma de viver.

Ao lembrar o filme, me vem a trilha sonora. Um bandoneon comovente que faz meus fios de emoção se tornarem rios. Uso uma metáfora para descrever esse sentimento. Mas sentir não é uma exclusividade dos escritores.

Para enxergar o mundo com poesia, basta emprestar a ele um pouco do que é seu.

E, para se abrir para o sentido metafórico, basta se envolver com a vida. De coração.

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