Ordinária

Ordinária

Há em mim algo do assassino, porque, às vezes, meu controle também falha.

Há em mim algo do pedinte, porque também sou faminta de compreensão.

Há em mim algo da criança birrenta, porque também recuso o que me contraria.

Há em mim algo da puta na esquina, porque também negocio com o desejo alheio.

Há em mim algo do colega folgado, porque também enxergo meus interesses em primeiro plano, mesmo quando renuncio a eles.

Há em mim algo do chefe arbitrário, porque meu orgulho é um monstro nas águas escuras de um lago.

Há em mim algo da mocinha alienada, porque também me agarro a uma esperança qualquer.

Há em mim algo da mãe negligente, porque também não sei ser mais o outro do que eu mesma.

Há em mim algo do fanático religioso, porque também gostaria de gritar convicções imutáveis.

Há em mim algo do político ladrão, porque também escondo minhas vergonhas.

Há em mim algo de cada pobre diabo, porque, apesar das diferenças que nos separam, conheço os tormentos que nos aproximam.

Ai de quem nega semelhanças ao semelhante.

E torna-se cego da sua própria humanidade.

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