Duendes

Quando eu era adolescente e dirigia por aí sem carteira de motorista, preguei no vidro do carro um adesivo escrito: “Eu acredito em duendes”. De lá pra cá, deixei de ser uma infratora do código trânsito, mas não deixei de acreditar em coisas intangíveis.

Entretanto, de vez em quando, faço o exercício de duvidar das minhas crenças e imaginar a vida sem elas.

Talvez não haja duendes e nenhuma energia emanando das pessoas ou da natureza.

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Barragem

Ei, Filha. Que bom que vocês chegaram bem. Aproveite a viagem. Passeie no sol, passeie na lua. Esqueça o site do Sisu. Segunda-feira você faz a inscrição e pronto. Sei que você está ansiosa para entrar na faculdade de Direito. Sei que o Direito Ambiental se tornou sua meta, depois que você fez o curso técnico em meio ambiente. Mas, veja bem, uma nova barragem de rejeitos se rompeu hoje. As fotos mostram as casas afogadas no barro, só os telhados de fora. A gente mal consegue supor vida embaixo daquela onda de sujeira. Mas havia. Um varal com roupa

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Metáfora

Estive procurando descobrir porque alguns textos que escrevo atraem muito menos interesse do que outros e desconfiei que o problema é com as metáforas. E, antes que você desista de chegar ao fim, por eu ter usado esse termo das aulas de português, me deixe explicar a metáfora como eu a aprendi aos 9 anos de idade. Minha professora me deu para ler o livro “O urso com música na barriga” de Érico Veríssimo e mandou que eu anotasse a frase mais bonita.

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Noticiário

Boa noite! Está no ar o jornal do dia, com os fatos desta terça-feira que você não pode ignorar:

DAVOS – Começou hoje o Fórum Econômico Mundial. Só 1 de cada 5 participantes é mulher. Dos poderosos do capitalismo reunidos na Suíça, pelo menos 25 estão envolvidos em escândalos de má conduta corporativa, incluindo sexismo e assédio.

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Desordem

– Mãe, por que você não usa esse vestido? perguntou minha filha mais velha.

– Porque me lembra o João.

– Então, por que você não dá o vestido para alguém?

– Porque me lembra o João.

Incoerente. Tantos anos depois, recusa e apego pendurados no mesmo cabide.

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Manual

Parabéns! Você adquiriu uma arma desenvolvida
pela mais ancestral ciência.

Seu uso é recomendado aos covardes para dar
coragem e aos valentes para dar descanso.

O manejo não requer treinamento, mas precisão. (No sentido de
necessidade, e não de funcionamento exato).

É um aparato sem potencial letal. Não há registro de morte causada
por esses disparos no peito.

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Abuso

Era um acidente grave em uma rodovia. Eu, repórter jovem e iniciante, fui até o policial rodoviário para conseguir informações. Passando pelos carros destruídos, ele explicava e eu anotava. Até que paramos junto a um dos veículos e, sem que eu pudesse prever, ele levantou, de uma só vez, o pano escuro que cobria um corpo. Usou o pretexto de procurar pelos documentos da vítima, mas sua intenção sádica era mesmo de me causar desconforto.

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Proteção

Descobri, num desses programas estrangeiros de TV a cabo, que existe um grupo de pessoas viciadas em protetor labial. Não apenas usuárias. Dependentes. Precisam ter sempre um bastãozinho à mão ou se sentem desconfortáveis e até ansiosas. Uma das vítimas do hábito descrevia como o intervalo de tempo entre uma aplicação e outra foi diminuindo progressivamente. E um médico alertava sobre o risco dos lábios se tornarem excessivamente finos com o uso de tanto produto.

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Índios

Levantei com o dia ainda escuro na reserva indígena dos Pataxós, no Vale do Rio Doce. Saí da barraca de acampamento carregando uma bolsa com papel, caneta, celular, microfone, maquiagem e toda a parafernália a que um repórter se apega. Ao me ver, uma índia deu risada e zombou: – Vai viajar? Era Maria Florguerreira, ou Txará Xorã, que, depois, se tornou tão querida. Me deu a primeira lição do dia. Índios precisam de pouca bagagem, conhecem a vida com seus próprios corpos e, mesmo que não possam mais ficar nus, ainda é a experiencia natural que lhes orienta. A

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Frustração

Ele deu sinais de que vocês não combinavam. Você desconfiou que ela estava em outra. Mas a gente inventa esperanças, imagina coisas e se frustra.

Você nem tinha certeza se queria mesmo aquele curso ou aquele emprego. Mas aí, foi descobrindo vantagens, se apegando à possibilidade e… não conseguiu.

Tempo demais se preparando para a prova, planejando a viagem, sonhando com um projeto… em vão.

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Meu pai

Hoje faz dez anos que escutei a voz do meu pai como se fosse a primeira vez. Ele voltava de uma cirurgia para a retirada de um câncer de garganta. Dentre todos os riscos que eu evitava encarar, me angustiei com esse menor, prevenido pelo médico: o das cordas vocais serem atingidas na operação e eu nunca mais escutá-lo. Ouvir o timbre dele naquele dia foi absorver com os sentidos o que já estava registrado profundamente. Sua voz limpa e séria traduz, ainda hoje, o solo firme em que se alicerçou a minha vida.

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Ano Novo

Procurei durante dias uma metáfora para desejar a você confiança no recomeço. Algo que te fizesse pensar no ano que chega como uma porta aberta para a novidade e o crescimento. Não estava fácil encontrar uma imagem que fosse honesta com as perspectivas que nos afligem. Mas a encontrei no meu pé. Mais especificamente, mordendo meu chinelo.

Então, desejo que você enxergue 2019 como eu enxergo nossa cachorra Amora.

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Tecno

1 ano – Na cadeirinha de refeição, brinca com um tablet e abre a boca sem olhar para a comida, oferecida por um adulto apressado.

2 anos – É entretida por vídeos para conseguir dormir, suportar esperar e tolerar andar de carro.

3 anos – Pequena tirana, manda na TV da casa e é obedecida pelos pais, culpados por trabalharem muito.

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De costas

Fim de um show empolgante de uma banda famosa. O grupo agradece e sai do palco. Eu começo a gritar: -Mais um! Mais um! Ninguém me acompanha. Recolho meu entusiasmo solitário. Olho em volta surpresa. Será que as outras pessoas não viram e ouviram o mesmo que eu? Antes que eu entendesse, elas já deram de ombros e começaram a se dispersar.

Quis imaginar que era um fenômeno isolado de um público muito específico. Pois, neste fim de semana, aconteceu de novo.

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Raízes

Temos habitado a superfície das coisas. Enquanto cresce o imenso terreno da informação, vamos, feito planta rasteira, sem produzir flor ou lançar semente, alastrando na mesmice.

Mas, de vez em quando, alguma força convoca para a origem e, então, somos capazes de visitar a essência. Nos últimos dias, dois fenômenos da internet (quem diria!) promoveram esse encontro.

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Ordinária

Há em mim algo do assassino, porque, às vezes, meu controle também falha.

Há em mim algo do pedinte, porque também sou faminta de compreensão.

Há em mim algo da criança birrenta, porque também recuso o que me contraria.

Há em mim algo da puta na esquina, porque também negocio com o desejo alheio.

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Maratona

Nesta semana cada um dos meus filhos deu um passo novo. A mais velha começou um estágio, o primeiro trabalho dela. Meu menino iniciou o ensino médio. E a pequena passou a estudar de manhã.
Nos preparamos como pudemos para essa segunda-feira. Tênis lavados, material nas mochilas, documentos assinados em envelope. Cartão de ônibus para uma, óculos para outro, lanche da caçula.

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Sua mãe e seu pai

– Vou falar poucas e boas na cara desse Freud! Que mania de colocar a culpa de tudo na mãe! Você leva sua filha na psicóloga, e ela faz o quê? Detona a gente!

O protesto materno é encenado pelo ator Paulo Gustavo. Acho que todo analista já foi alvo de fúria semelhante à da personagem da Dona Hermínia.

É que a terapia vai apontar na direção da infância para tentar descobrir um padrão amoroso.

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