Partilha

Partilha

Quando os seus cabelos brancos autênticos tocam os meus cabelos pretos tingidos, eles me ensinam sobre verdades que não se podem esconder.

Quando você, num palco com microfone, dá aula sobre cinema, o que escuto é sobre o roteiro da vida, sobre a profundidade das nossas cenas cotidianas.

Enquanto suas explicações apaixonadas de filósofa desvendam séculos e milênios, o que aprendo é sobre a importância de viver hoje, com entrega e intensidade.

Quando você diz da sua peleja com o filho especial, entendo que especial é todo tipo de cuidado e o mérito está em pertencermos aos nossos afetos.

Quando os seus oitenta e poucos anos se debruçam em direção aos meus quarenta e poucos, eles me transmitem a dignidade da experiência.

Ah se toda mulher pudesse ser retirada do silêncio bruto pelas mãos de um diálogo amoroso assim… Teríamos, como você deseja, mais Antígonas, cultivando uma ética feminina de respeito e solidariedade, como fez a personagem grega, que arriscou a vida para oferecer o sepultamento justo ao irmão.

Ah, se cada ser humano pudesse receber de um sábio os segredos do tempo… Seríamos água do mesmo riacho, como nos versos que você me falou:

“O tempo, minha querida, é como o riacho, do poema de Manuel Bandeira, onde o galho da ingazeira se debruça.”

Não espera, não se demora. E só há um caminho para que, nele, não se percam nossos tesouros: a partilha do ser, a generosa distribuição do conhecimento.

Você a faz incessantemente, em cursos, conversas, livros, viagens e entrevistas. E o que transmite, pelos meios mais diversos, é tão sagrado quanto os mistérios de um ritual ancestral feito na floresta, em torno de uma fogueira.

Fiquei preocupada sobre a sua glicose, três vezes mais alta do que o recomendável. Também, não é para menos. Resultado de décadas oferecendo açúcar junto com as palavras.

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