Poesia

Poesia

Eu tinha dezesseis anos e me encantei com o rapaz que, como eu, gostava de poesia. Foi dela a culpa. A poesia.

Lembro a noite em que fomos expulsos da biblioteca pública. Já estávamos há muitas horas lá, sem destino entre os livros. A mais atraente das aventuras. Puro prazer intelectual. Surpresa e deleite de páginas abertas ao acaso.
Naquele dia conheci Baudelaire, visceral e boêmio. E, seguindo o conselho do escritor francês, que sugeriu “embriagai-vos”, depois de enxotados pela funcionária que precisava fechar o prédio, fomos ao boteco, tomar cerveja com cadernos anotados de versos.

Um dia entreguei a ele um escrito meu, passado a limpo na melhor caligrafia possível. Não me lembro o tema, mas sei que eram profundezas com palavras difíceis. Ele leu e me devolveu o texto, sem entusiasmo: prefiro café no bule. Entendi. Nunca mais escrevi coisas vestidas em roupa de gala, engomadas em expressões incomuns para soarem preciosas.

Numa outra ocasião, houve beijos. Só uma vez. Coisa pouca. E o comentário dele foi ainda mais desanimador do que o outro sobre a escrita: você parece uma gueixa. Não era um elogio, de jeito nenhum. A culpa? Foi da poesia. A única coisa que poderia haver de gueixa em mim, naquele breve contato de adolescentes, era o ritual. Talvez eu o tenha tocado com a devoção que eu dedicava aos poetas. Esse engano, de tomar alguém pelo valor daquilo que lê, eu cometi muitas vezes depois. Não deixo de me espantar com a distância entre seres humanos de carne e osso e aquilo que dizem, escrevem, conhecem ou teorizam.

O ponto final desse meu arrebatamento de frase curta foi um sinistro, para usar uma linguagem tão patética quanto o episódio. Eu e uma amiga estávamos na casa dele e fomos os três ao centro da cidade, onde eu precisava comprar sapatilhas para minhas aulas de dança. Eu dirigia o carro da minha mãe, obviamente, sem carteira de motorista. Deixei a amiga na esquina da loja para que ela pegasse a encomenda e fui dar uma volta no quarteirão. Nesse percurso, numa avenida movimentada, fui pega por um ônibus que avançou o sinal e me arrastou infinitos metros. Desespero para quem já estava incriminada de antemão.

Sem pensar, me desentalei daquela confusão com urgência e fugi antes que alguém procurasse dentro do carro pelo rosto da motorista. Voei por muitos quarteirões, com um barulhão me seguindo, e só parei quando já estava em outro bairro. A amiga e as sapatilhas, claro, ficaram esquecidas. Desci para ver o tamanho do estrago, que era considerável. Descobri o para-choques solto. Ainda correndo, tirei o cadarço do tênis, me deitei na rua e amarrei a peça que arrastava no chão para tentar chegar em casa. Foi só então que voltei a perceber a presença dele. Com as mãos na cabeça, ele se agitava na calçada dizendo: eu vou ser indiciado! Eu vou ser indiciado! Acho que ali mesmo ele ficou, quando me dei conta que a fantasia tem limites.

Cheguei em casa e liguei para a minha mãe, me sentindo a pior criatura do mundo. Ela estava em outra cidade a trabalho, sacrifício que fazia para poder complementar a renda com a ajuda das diárias de viagem. Ficávamos em casa, eu e meu irmão mais velho. Não me lembro dela me repreender. Sei que ela ligou para o meu pai, já que os dois eram separados, para pedir que ele me levasse para dormir na casa dele. Tive febre durante essa noite e fui cuidada.

Senti a aproximação de uma verdade, que só mais tarde elaborei. Poesia é um colo. Isso sim.
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