Reparação

Reparação

O ódio pode nos tornar impulsivos, violentos e vingativos, como um bandido de cinema. Mas, a mesma personalidade pode se fazer terna, como um avô sereno que planta lírios.

Quem me fez pensar sobre isso foi Clint Eastwood. No filme “A mula”, ele atua, produz e dirige para contar a história, baseada em fatos reais, de um idoso que se tornou transportador de drogas. Fracassado nos negócios e abandonado, como mau pai e mau marido, ele passa a servir a um cartel.

Impressiona que o homem tenha se tornado uma personalidade do narcotráfico aos 90 anos de idade, driblando a polícia. Mas a mim encantou mais que, depois disso, da prisão e de um processo judicial, ele ainda tenha decidido se redimir, refazendo os laços familiares e assumindo as consequências dos crimes.

Reparação é uma atitude mágica, que pode nos aliviar de erros grandes ou modestos. Não significa absolvição ética, passar uma borracha no passado ou voltar atrás. Significa dispensar a culpa paralisante e substituir a destruição que causamos por alguma construção benéfica.

Dentro da palavra reparação, mora ação, trabalho. Não é punição cruel, expiação de mártir. Nem redenção plena e absoluta. É empenho diário, esforço possível para restabelecer ou consertar. Mesmo que o resultado esteja distante ou inacessível, já é tranquilizante caminhar na direção dele.

Também acalma admitirmos que não estamos num mundo de vilões e mocinhos. Todos fazemos besteiras e nem sempre conseguimos proteger os outros da nossa loucura.

Quem decide se responsabilizar chama para si uma dívida, mas abraça junto um sentimento de valor próprio, por se assumir capaz de alguma renúncia em nome de um resultado maior.

Só não devemos, como o personagem do filme, esperar pelo fim da vida para que o tempo vença nosso orgulho. Melhor começar as reparações o mais rápido possível, antes que os enganos e feridas se aprofundem como as amadas rugas de Clint.

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