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Riacho

– Riacho, fala comigo que sou poeta.
– O que é um poeta?
– É alguém que procura claridade atrás das portas.
– E o que você faz aqui?
– Procuro verdades no fundo da sua clareza estendida.
– Quem sou eu para arrastar o peso de verdades…
– Você conhece a direção.
– Não é que conheça, apenas nada posso contra a correnteza.
– É bonito seu desenho incerto, com finas espumas brancas nas bordas, feito crochê.
– Ninguém é linear, justificado inteiro.
– Você tem sabedoria, riacho.
– Mais sabem as águas que passaram antes de mim.
– Está me parecendo que você se encolhe…
– Meu desafio é ter o meu tamanho exato, nem menor, nem maior.
– O que amplia um riacho?
– Pequenas nascentes e grandes obstáculos. E o que amplia um poeta?
– Grande dores e pequenas alegrias. Você tem medo de ser grande, riacho?
– Medo não tenho. Eu tenho impulso.
– Isso é coragem, riacho. Você já me ensinou um pouco.
– Não sei se tenho o dom de ensinar. Só a duas coisas me destino: me ampliar, me ampliar, me ampliar. E, antes que me sinta grande demais, me entregar ao mar, para não esquecer que sou apenas parte.
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