Sono

Sono

Comprei para você um chá indiano de manjericão-sagrado com rosas. O vendedor da loja garantiu que ajuda. Queria mesmo era lhe dar o sono de presente; mas só você pode conquistá-lo.

Atraí-lo como a um gato arisco. Dobrar-se à superioridade dele, evitar gestos rudes e acariciar sua presença. Mas é coisa de homem acariciar manhas? Sim, como não? O que será de um homem se não puder dar a mão ao menino cansado que também é?

Repousar o corpo exausto, os nervos torturados. Mergulhar devagar como quem afunda aos poucos num travesseiro de penas.

Sem medo do roteiro do filme que se projeta na tela da inconsciência. Que seja um longa-metragem, com tempo suficiente para fugir dos monstros, atacar os ódios e desejar o proibido.

E que você volte, lavado ou encharcado dessas impressões – não importa. Volte para perceber que sua ausência é desimportante, que tudo segue como você deixou: pendente ou indiferente.

Então, você tomaria gosto pela pausa, pela entrega. Poderia se divertir no trânsito entre esses dois lados, como uma criança brincando com uma porta automática, que abre e fecha à sua vontade.

Se eu pudesse, tiraria de você o peso da vigília permanente, da gorda necessidade de sensatez assentada no seu espírito. Cantaria baixinho para você uma canção dizendo:

Dorme, que muito da vida é invenção. E até os compromissos são um tipo de engano a que nos prestamos.

Dorme, que nunca estamos plenamente acordados e a fantasia nos engole mesmo de olhos abertos.

Dorme, que nossa história está cheia de buracos. E não é possível tapá-los nem com a pá de mil horas insones.

Dorme, que sonho e realidade dividem a mesma cama desde sempre, e não vai ser você a separá-los com a força da razão.

Dorme, que estar desperto significa, principalmente, saber que temos limites.

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