Sossegue

Sossegue

Sossegue – quero dizer à minha colega – porque o poder seduz e, mesmo usado em benefício de alguém, pode iludir quem o exerce. A vaidade é uma ama dedicada engordando o ego e ele tende a se tornar voraz.

Sossegue – quero dizer à minha filha – porque é preciso eleger as lutas as quais vamos nos dedicar. Se nos ocuparmos de todos os erros do mundo, vamos acabar afogadas em angústia.

Sossegue – quero dizer à minha paciente – porque o amor não é prêmio, que se conquista de uma vez e em definitivo. É construção feita para suportar os enganos e o tempo pode ser um aliado.

Sossegue – quero dizer à minha mãe – porque você já conquistou o direito ao descanso. A idade deve ser um refúgio onde as faltas do início da vida não podem mais nos alcançar.

Sossegue – preciso, na verdade, dizer a mim mesma – porque quem supõe saber o melhor para o outro anda afastado de si. Quem distribui palavras demais recolhe pouca sabedoria.

Orgulho, onipotência, fantasia e carência moram em mim. É o espelho que me desassossega.
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