Sua mãe e seu pai

Sua mãe e seu pai

– Vou falar poucas e boas na cara desse Freud! Que mania de colocar a culpa de tudo na mãe! Você leva sua filha na psicóloga, e ela faz o quê? Detona a gente!

O protesto materno é encenado pelo ator Paulo Gustavo. Acho que todo analista já foi alvo de fúria semelhante à da personagem da Dona Hermínia.

É que a terapia vai apontar na direção da infância para tentar descobrir um padrão amoroso. Como a pessoa se acostumou a agir desde pequena para conseguir atenção? Era a doentinha? A rebelde? A responsável? A competitiva? A dramática? Ou a que deixava suas próprias necessidades de lado? Não há como descobrir o papel escolhido sem falar da atuação dos protagonistas desse palco, que são pai e mãe (ou a falta deles).

Além disso, tem outro caso. O processo natural da adolescência faz os filhos olharem os pais de forma menos idealizada, para se distanciarem e se tornarem independentes. Acontece que algumas circunstâncias impedem que essa ruptura saudável aconteça, como as crises familiares, pais falecidos, doentes, chantagistas… Então, é preciso fazer no consultório o que não foi possível fazer antes: reconhecer os enganos, limitações e excessos dos pais.

Mas, isso, Dona Hermínia, não destrói o vínculo, só o amadurece, e pode fazer bem para os dois lados. Filhos presos demais à influência dos pais ficam ressentidos e agridem. Ainda que não percebam isso claramente, têm mágoa por não estarem conseguindo viver. E, quando a lógica da infância não é rompida, também permanece a exigência de amor faminta da criança, o que gera frustração e mais briga.

Porém, quando um adulto percebe que já pode suportar não ter a aprovação dos pais, ele se liberta. Se dá conta que o desamparo, que era uma questão de vida ou morte na primeira fase da vida, agora é tolerável e o medo dele não vale o preço de deixar de fazer as próprias escolhas.

Aí, é possível dar as costas para a casa de origem (sei que dói para a senhora ouvir isso) e virar-se de frente para o resto do mundo. Então, não há mais porque cobrar por erros passados, que param de ter consequências no presente. A convivência com os pais pode ficar mais harmoniosa porque deixa de ser um impedimento.

E se o seu pretexto para recusar isso é o medo de que a cria esteja desprotegida sem o seu controle, pense que é possível a gente encontrar por dentro um pouco da disciplina, da segurança e do senso prático de uma figura paterna. E podemos desenvolver também a capacidade de nos tratarmos com a bondade, o cuidado e o afeto da melhor das mães.

Então, relaxe, Dona Hermínia. E esqueça a briga com Freud e os terapeutas. Cada um de nós pode se tornar a mãe e o pai de si mesmo e ainda preservar a gratidão por quem nos concedeu e proveu a vida.

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