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Teto

Um beija-flor apareceu para me dar uma lição. Ah não, não foi bonito.
Ele ficou preso na sala, apesar das janelas abertas.
Feito eu, presa nas urgências, com toda minha suposta liberdade.

Pelo que li, o passarinho é atraído pela cor vermelha.
Eu também. O que pulsa me convoca.
Sigo atrás da ideia, do gesto, do sentimento que latejam.

Vou hipnotizada feito o colibri, trombando nas paredes.
Arrastada como Quixote pela vontade de salvar algo.
Estropiada de tentar tornar poética a mecânica do relógio.

Que bichinho tolo, pensei.
Que tola sou eu, refém desta coisa de mulher de dar ao mundo.
Onipotente feito uma grávida de certezas e poderes.

O instinto do beija-flor é voar para cima e ele se machuca no teto.
As aspirações que invento também me deixam fatigada.
Quero o alto das sabedorias e me de debato com os limites.

O amor me fala do chão, para procurar caminhos a meu alcance.
Resisto feito o pássaro voando em círculos.
Que solidão não ser compreendida em cegueira igual.

Quando o passarinho finalmente perde altura, ele encontra a janela.
Só exausta, desço do céu dos meus interesses ilusórios.
Lá estava a saída, bem mais acessível do que eu imaginava. Bem mais perto.

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