Tratamento

Tratamento

Faz uns 20 anos. Era domingo. Eu, repórter de plantão. Havia um engarrafamento gigante numa rodovia e nossa equipe foi até lá, imaginando que encontraria um acidente. Mas, a fila de carros ia em direção a um sítio. O motivo do congestionamento era a presença do médium João de Abadiânia fazendo atendimentos gratuitos no local.

Ao constatar a presença da câmera, ele pediu que pacientes fossem levados à varanda da casa, que usou como um palco. Fez cortes com bisturi, que escorriam sangue, sem que as pessoas manifestassem dor. Fizemos a reportagem e, antes de irmos embora, ele me disse que voltasse no dia seguinte, usando uma roupa branca.

Voltei, acompanhada do meu futuro marido. Por algumas horas, presenciei os atendimentos e, numa pausa, ele conversou conosco. Gastou tempo relatando como todas as pessoas importantes do país o consultavam e, rapidamente, para a nossa surpresa, introduziu o tema sexual. Disse que, entre as pessoas que o acompanhavam, ele tinha liberdade para fazer o que quisesse. E deu o seguinte exemplo: “Se eu estiver viajando e, num restaurante na estrada, eu tiver vontade de dançar, essas mulheres vão dançar comigo”. Fomos embora. Meu namorado puto e eu me sentindo uma idiota.

Por que eu fui até lá? Eu não estava frágil ou doente, como a maior parte das vítimas dele. Nem mesmo desejei ser atendida. Mas, eu acreditei que ele podia ter alguma chave, alguma palavra, alguma mensagem de algo sobre mim, que eu não podia acessar.

A coluna de hoje do psicanalista Contardo Calligaris, na Folha, nos leva a pensar como o fato de sermos mortais, nesse mundo sem sentido, nos torna crédulos e, portanto, vulneráveis a gente desse tipo.

Alguns vão gritar: Eu não sou crédulo! Nunca cairia nesse tipo de golpe! Mas sempre caímos em algum. Há quem creia no controle, no dinheiro ou no poder como forma de se defender da nossa condição tão precária. Há quem aposte no intelectualismo, quem aposte no amor romântico. Nada tão humano quanto nos apegarmos a uma fantasia para nos defender, para nos sentirmos menos inseguros. 

E será que existe alguma prevenção contra essas ciladas?

Pensando no que eu mesma aprendi, diante daquele homem indigno, acredito que o remédio contra esses engodos é cuidarmos da nossa alma. Por nós mesmos. Estamos tão distantes da nossa profundidade, que delegamos a alguém ou algo o poder de saber sobre nós. Ou tão inconformados com a falta de certezas da vida, que vamos tentar construí-las a custo de qualquer ilusão. 

Precisamos segurar o bisturi, cortar nas nossas feridas, suportar a dor e o sangue e nos tratarmos.

E como se trata a alma? Com arte, rituais, natureza, meditação, memória, encontros… e também com a aceitação de que, do nosso desamparo, nunca iremos nos curar completamente.

Foto: Willian Schneider

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