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Verdades

Hoje eu gostaria de estar no lugar do meu gato Drac, descansando na prateleira das ideias de Pessoa, Clarice, Rosa, Rubem Alves, Saramago, Valter Hugo, Drummond, Lygia e Adélia. Gostaria de me apegar a palavras honestas, quando vejo ruir tantos discursos ilusórios.
Como é falso o discurso das religiões, que agora brigam judicialmente para lotar os templos. Como pode haver algo mais sagrado do que a vida?
Como é falho o discurso da tecnologia, que não nos protegeu da pandemia, nos trouxe à beira do colapso climático e criou novas formas de exclusão e controle.
Como está reduzida a racionalidade humana, cada vez mais superficial e aflita. Como mentiram sobre um desenvolvimento que só ampliou a desigualdade e os adoecimentos psíquicos.
De que valem o marketing, os coachs, os posts? De que valem tantas páginas de autoajuda, dizendo “seja foda”, quando não sabemos nem ser gente?
De que valem teorias com novos nomes, prometendo um futuro melhor, quando, no presente, não construímos valor nenhum? Qual outra expansão interessa que não seja a expansão da nossa subjetividade?
Agora que estamos condenados à nossa vida real dentro de casa, quem vai nos ensinar a viver os dias com sentimento, com presença, com percepção? Quem vai nos ensinar o pequeno, o simples, o instante?
Só me acodem os artistas, os verdadeiros. Eles expressam o que é ser humano, com sofrimentos, falhas e desejos autênticos. São corajosos e tocam a vulnerabilidade. Não estão escondidos atrás de egos enormes. Se os ouvíssemos, saberíamos que estamos muito fora do curso. Não precisaríamos de um vírus para cair do pedestal que construímos com palavras tão arrogantes e cheias de certeza.
Somos nada. A covid estampou. Angústia, precariedade, limite. Os artistas nos revelam e, ao mesmo tempo, dão prova de como os limites podem ampliar potenciais e sonhos. Eles realizam a transformação do pequeno em essência. Observam as forças em torno e nos reconectam ao fluxo maior, o fluxo da criação, da perseverança da existência.
Dormir junto da poesia não é se alienar. É estar acordado para a verdade.
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