Você é feliz?

Você é feliz?

A pergunta, que exige uma vida inteira de meditação, me foi feita logo às sete horas da manhã por uma paciente. De imediato, consegui responder apenas: “nem sempre”.

A questão que estava em jogo era como depositamos a nossa felicidade nos outros, o que é bem natural, afinal só sobrevivemos porque alguém foi responsável por prover todas as nossas necessidades quando éramos bebês.

Crescemos esperando que alguém nos sirva comida, afeto e segurança. Mas ninguém é capaz de dar tudo o que desejamos. Crianças são mesmo um saco sem fundo. Então, passamos anos da infância nos sentindo famintos. Ficamos sentados à mesa familiar sonhando com um banquete, fantasiando cada detalhe de uma maravilhosa refeição afetiva. Até que chega a idade em que a vida convoca lá fora e haverá formas diferentes de lidar com esse convite.

Algumas pessoas, com medo, irão se recusar a sair da mesa. Elas pensam: “se meus pais me frustraram na tarefa de suprir minhas demandas, os outros irão me frustrar também”. São as pessoas que se fecham, vivem pela metade e até negam que tiveram fome um dia.

Outras pessoas irão sair a procura de alimento, levando a sonhada imagem de uma refeição completa, com vinho, entrada, prato principal, sobremesa e cafezinho. Como ninguém tem esse cardápio todo a oferecer, elas se condenam à insatisfação.

Qual seria, então, um bom caminho? Acredito que precisamos desistir, tanto de alguém que nos estenda o banquete, quanto da memória permanente da fome. Precisamos assumir nossa própria nutrição e aceitar que ela vai ser composta, na maior parte das vezes, de pequenas refeições.

Precisamos parar de recusar as formas de amor que não estão escritas no caderno de receitas da mamãe. Há amores que são fruta recolhida no pomar, chazinho em dia frio, hambúrguer de madrugada ou piquenique de domingo. Há até os biscoitos de água e sal, porém, todos os afetos alimentam de alguma forma. Todas as relações têm algo a oferecer. Temos que aprender a saborear e a nos saciar, porque amor do tamanho que criamos quando pequenos não existe.

Voltando à resposta que dei à minha paciente, não há como ser feliz todo o tempo. Mas há como se alegrar com as mordidas, com os gostos e com os encontros.

No final das contas, o sabor não está no outro. Somos nós que colocamos o tempero e nos tornamos mais acessíveis à tal felicidade.
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