Natal

O Natal vem chegando e que alegria me dá! Não porque eu tenha sido criada nesse espírito. Pelo contrário. A vida dos meus pais era dura e eles eram pragmáticos. Não nos ensinaram a acreditar em Papai Noel, não frequentavam nenhuma religião e não havia qualquer celebração tradicional na nossa família. Mas eu, imaginativa, fui capturada pelas imagens dos cartões de Natal que chegavam pelos correios. Juntava, encantada, as figuras com aplicações em dourado e, lá pelos 7 anos, decidi montar eu mesma a árvore de Natal

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Demolição

Até ontem estava bem lá em frente. A casa antiga, em vermelho desbotado, com uma eterna placa de vende-se. Mas, ao abrir o portão nessa manhã, havia uma claridade atravessando a rua. Um lote aberto por onde se via até o quarteirão acima do meu. A demolição foi feita em um único dia. Parei na calçada diante da novidade. Um senhor idoso de chapéu se aproximou, sem pressa e sem surpresa, e me disse: - A gente hoje não pode se basear no que viu ontem.

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Bandeira

Já entendemos. Nosso país não é tão amável quanto queríamos supor. O aparente respeito às diferenças não passava de um verniz, que escondia desprezos profundos. Nos desiludimos. A preocupação com o bolso é maior do que o apego às liberdades. Nossa democracia é frágil, porque não está enraizada em cada cidadão. Trombamos com a verdade. Com a triste escolha entre cofres e vidas.

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Pérola

Já perdi pessoas para a vida. Já perdi pessoas para a morte. Por que estou tão abalada com a possibilidade de perder uma cachorra? É que, nesses quase doze anos, não fui eu a mãe da Pérola. Ela é que foi um pouco mãe dos meus filhos, quando eu saía cedo para trabalhar e ela se deitava ao lado da cama de um deles. Apesar dos cuidados que dedicamos, sentia que era ela que nos tratava.

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A visitante

É uma senhora. Difícil precisar a idade. Mas nao se chega a esse estado sem ter deixado para trás as décadas da juventude. Seu olhar nada inquire. Foi ofuscado pela complexidade do presente e se tornou cego para o convite do futuro. O rosto tem as marcas das rupturas que desatam os amores e da morte dos discursos de mudança.

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Crime

O capoeirista Môa do Katendê foi assassinado ontem à noite em Salvador. Depois de uma discussão política, recebeu 12 facadas de um eleitor de Bolsonaro, conforme informou a Secretaria de Segurança da Bahia. No momento do crime, o líder do primeiro turno dizia na TV: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”. Sua voz ecoou naquele boteco de uma comunidade pobre, onde tombou o militante da cultura afro-brasileira.

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Sombra

Daqui a alguns dias faço aniversário e já disseram que devo estar vivendo meu inferno astral. Minha alma está escura, pesada de dúvidas. Como evitar o confronto, sem ser omissa? Como ser combativa, sem ser agressiva? Como defender certezas, sem ser arrogante? Como recusar ideias, sem virar as costas?

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Prece

Pelo enfermeiro gay que, num hospital onde meu pai esteve internado, se empenhava para cuidar e para fazer rir os doentes. Pelo policial rodoviário negro que, ao me flagrar sem carteira de motorista, foi gentil e tranquilizador. Pela vizinha pobre que, no dia quente da morte da minha avó, levou uma jarra de limonada para dar aos parentes, que chegavam de longe para o enterro.

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Água

Desculpe-me o interlocutor, mas vou outra vez falar de água. É que água e amor me atraem igualmente. Fiquei pensando que há amores que são como lagoa de chuva formada entre as dunas. Oásis fresco e luminoso. Podem ser uma pintura na paisagem da rotina árida, mas não duram até a proxima estação. Há também o amor que é como o mar que ruge, arrasta. Sedução do infinito inatingível.

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Feminino

Eu devia ter uns 10 anos quando a professora do colégio pediu que os alunos dissessem, um a um, qual profissão gostariam de ter. Todos respondemos com igual esperança sobre a carreira que desejávamos construir. Certamente, quando minha mãe estava na escola, não se poderia esperar tal questionamento e, muito menos, respostas semelhantes para meninos e meninas.

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