Dia das Mães

Você viu o desconforto no olhar do seu chefe quando comunicou a gravidez. Aceitou o preço que a gestação cobrou das veias e dos tecidos. Perdeu noites de sono e madrugadas de diversão. Serviu outros pratos antes do seu. Passou a temer a morte por medo do desamparo deles. Esqueceu como é tomar um banho demorado.

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Céu

Quando me deito na cama para dormir, com cortina e janela abertas, tenho o privilégio de ver apenas o céu. Nuvens, raras estrelas, luzinhas de avião. Nada obstruindo a vista, a não ser as grades. Mas, de tanto olhar distante, deixo de enxergar as barras de ferro. Limpo a imagem das listas negras e preencho seus espaços com a cor da noite.

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Olho gordo

Contra a inveja que vem de fora existe oração, amuleto, patuá. Mas o que pode nos defender da inveja que surge em nós? Não há quem desconheça esse sentimento rastejante de desprezo pelas conquistas do outro, de intolerância aos atributos alheios, de mágoa por quem recebeu mais atenção, mais beleza, mais oportunidades. O invejoso é alguém que acredita que a vida lhe negou algo. Quanto mais frágil, mais ameaçado e, por isso, mais agressivo e vingativo.

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Costura

Aos 15 anos, eu achava que o amor era seda finíssima, que cobria a visão dos amantes com um tom rosado. Aos 20, imaginei que era cetim. Brilhante, ruidoso e escorregadio. Cama para a perdição dos sentidos. Aos 25, me abriu a temporada da primavera. O amor virou pano de chita. Flores e fecundação. Reprodução colorida.

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Pertencer

A falta de uma conversa com o vizinho. A saudade de um pé de goiaba no quintal de casa. São as ausências que doem até hoje nas vítimas da tragédia de Mariana. Mais de dois anos depois do rompimento da barragem, um terço dos moradores de Bento Rodrigues sofre de depressão. Consequência dos laços que se desfizeram, explicou o professor de psiquiatria da UFMG, Frederico Garcia, um dos responsáveis pela pesquisa sobre a saúde mental dos atingidos.

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Luta de um só

O amor sempre pega o ego de surpresa, mesmo quando o ego jura ter planejado a ocasião. O amor veste plumas e tachas. O ego prefere algodão cru. O amor se esparrama nas almofadas. O ego limpa os desatinos. O amor esverdeia as plantas. O ego poda os excessos.

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Variância

A filha menor, saindo do banho: - Mãe, por que a gente está usando só desse sabonete verde? Explico que ganhei uma caixa deles de presente. - É de alecrim. Você não gosta? - Gosto. Mas, quando a gente usa sempre o mesmo, se acostuma e não sente mais o cheiro. Prefiro variância.

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Gaiolas

A imagem era um contraste. Na entrada de galpões imensos de siderurgia, onde funcionavam fornos a mais de mil graus de temperatura, ficavam as pequenas gaiolas com um canarinho dentro. Os bichinhos foram parar no ambiente industrial para garantir a segurança. Em caso de vazamento de gases perigosos, eles, como são mais frágeis que os humanos, eram rapidamente intoxicados e seu canto interrompido servia de alarme para os operários.

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Mãe

Uma colega me contou que, certa vez, a mãe dela ganhou um único bombom de presente. Não comeu. Levou para casa, dividiu em partes iguais e distribuiu entre os quatro filhos. Me perguntou se eu também sou assim com minhas crianças. Não sou, respondi. E ai deles se pegarem do chicletes que fica na minha bolsa. Ela ficou surpresa e disse que deviam cassar minha carteirinha de mãe. Pois é... minha opção maternal não é de abnegação, mas de prazer.

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Palavras

Acho um luxo a expressão “pessoa de poucas palavras”. Em certo sentido, é uma meta. Um desafio para alguém como eu, cheia de convicções. Mas o tempo ensina. Quanto mais escuto, menos falo. Quanto mais descubro os motivos profundos das pessoas, menos acredito na minha capacidade de fazer julgamentos imprudentes, precipitados, injustos. As palavras podem ser cortinas, que impedem a visão do outro e até de nós mesmos.

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