Ciúme

Inventei há algum tempo uma historinha sobre o ciúme para a minha filha caçula. Dizia assim: O ciúme é um senhor miúdo, de fraque e cartola, que mora no nosso coração. Ele pode parecer galanteador e até simpático. Mas se damos muita atenção a ele, o danado vai crescendo e perde a compostura. Primeiro, se rasga e se descabela. Depois, grita e machuca e, por fim, acaba deixando a gente louco.

Continuar lendo Ciúme

Descasada

Querida, eu imagino como se sente. Lembro o dia em que parei na frente do espelho certa de que havia algo muito errado comigo. Demorei um tempo me olhando confusa até que pensei: essa roupa não casa. E então, a palavra “descasada” bateu em mim feito um tapa. Meu desconforto não estava na aparência, mas na perda de um papel, um projeto, uma segurança. Quando se é uma mulher sem marido e com filhos, parece que olhos anônimos espreitam e nos condenam por isso.

Continuar lendo Descasada

Inútil

Encontrei uma amiga com quem não conversava há algum tempo. Nós, apesar de termos a mesma profissão, não costumamos nos ver em eventos de trabalho, mas em compromissos maternos. Ela, como eu, tem 3 filhos. Idades parecidas e alunos das mesmas escolas. Nosso assunto nos últimos 15 anos, na saída de uma apresentação de teatro, na barraquinha de uma festa junina ou à espera por uma reunião de pais, sempre foram as crianças. Mas, os meninos crescem (ufa!) e, dessa vez, eles não foram o tema principal da nossa conversa

Continuar lendo Inútil

Sobrenome

Filhos queridos, Sei que, na época da alfabetização, vocês eram os últimos a terminar de copiar a ficha. Sei que o espaço nos formulários nunca é suficiente. Mas, me deixe explicar melhor o que penso sobre esse nome comprido que vocês têm, com quatro palavras depois do prenome. Não me parece razoável que só o lado masculino seja contemplado nas certidões de nascimento, como se não fossem as mulheres as responsáveis pela maior parte do cuidado com a família.

Continuar lendo Sobrenome

Morte

Assinar uma autorização de eutanásia foi das coisas mais difíceis que já fiz. Mesmo com o quadro irreversível. Mesmo com as convulsões vindo uma em seguida da outra. Mesmo sendo uma cachorra velhinha, cega de um dos olhos. Ainda era a Serena que respirava.  Lembro do dia que a trouxe, com apenas um mês de vida. Cheguei no horário do almoço, os meninos já de uniforme para a escola, e disse: - Hoje ninguém vai pra aula! Que festa. Ela foi a primeira de muitos bichos da nossa casa. Faz doze anos.

Continuar lendo Morte

Cheiros

A surpresa me esperava atrás da porta de vidro do banco. No instante em que entrei, fui assaltada pelo cheiro de limpeza recente. Mistura de álcool e cloro pairando no ar condicionado. Interrompi os passos a caminho do caixa eletrônico. Estanquei no meio da agência, atenção e olhos capturados por outro tempo. Era exatamente o mesmo cheiro da UTI onde esteve internado o meu filho, que nasceu prematuro. O olfato rasgou uma distância de 14 anos. Senti de novo a intensidade e a contradição daqueles dias.

Continuar lendo Cheiros

Sonhos

Tenho um sonho repetido em que estou nadando em uma piscina com muito pouca água. Me esforço, mexo braços e pernas, mas não saio do lugar. Freud explicou que todos os sonhos são realizações de desejos, ainda que se apresentem distorcidos. Mas como me debater como uma baleia encalhada pode ser a concretização de uma vontade? É que nós, neuróticos, curtimos o desprazer. Nosso desejo sempre arrasta junto uma censura, que vocifera pra gente: Você não pode nadar de braçada na vida!

Continuar lendo Sonhos

Cozinhar

Há dias em que preciso cozinhar. Não comida. Mas sentimentos. Não adianta o sol me chamando lá fora. Não adianta a culpa pelas tarefas relegadas me empurrando. Fico na cama, dia e noite. Sem ligar a música, sem abrir nem um livro. Penso, durmo, acordo, repenso e pego no sono tantas vezes até que os sonhos se misturem com a vigília e, quem sabe, revelem à consciência alguma coisa sobre as minhas verdadeiras razões.

Continuar lendo Cozinhar

Tiradentes

Não sei o que me faz amar tanto essas cidades velhas. Será por causa do limo entre as pedras, lembrando a permanência que nunca tive? Serão as janelas, que não tomam distância dos passantes? Ou serão as cortinas bordadas à mão, soprando que ainda há tempo a perder? Podem ser as vigas, resistindo idealistas. Ou as portas carcomidas, submissas ao tempo.

Continuar lendo Tiradentes

Desnatureza

Eu gostaria de encontrar formas suaves para você enxergar isso. Mas é duro, é cruel, é o contrário do que manda a natureza (e a gente gostaria de crer, não é mesmo, que a natureza garante ordem nos comportamentos). Mas não garante. E você foi vítima. Vítima de um pai, vítima de uma mãe, vítima de alguém que não desejou ou soube lidar com esse papel, vítima de quem nem deveria ter o direito de exercê-lo.

Continuar lendo Desnatureza