Razão

Nesta semana, uma paciente minha se queixou dos comentários que escuta no trabalho. Insinuações de que as conquistas profissionais dela são fruto da sua aparência, e não do seu empenho ou conhecimento. Cometo a inconfidência de escrever sobre o assunto tratado em consultório, porque o fato é tão recorrente que chega a parecer banal. Mas não é banal que nós mulheres ainda sejamos divididas em dois grupos: a mulher do desejo e a mulher da razão.

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Musgo

O musgo cobria as pedras do caminho. Me sentei à beira para alisar o verde. Tapete vivo. Macio feito beijo de boa noite, eu penso. Por que o amor se enfia nas frestas do meu coração E alastra feito musgo?

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Esperançar

Hoje faz um ano do desfecho de uma história dolorosa para nossa família. Um acidente com churrasqueira e álcool na área de lazer de um prédio. Várias pessoas feridas. Meu padrasto perdeu sua filha. A netinha de 11 anos ficou órfã e com algumas queimaduras. Me preocupei em como ele ia atravessar essa data. Ele, que faz parte da minha vida há 20 anos, como um segundo pai (uma ostentação da minha parte, já que tenho pai vivo).

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Linhagem

Minha mãe tem um quartinho de costura, que é um mafuá, onde disputam espaço panos, computador, livros, fotos e um mural para bilhetinhos com flores nas bordas, que ela desenha. Nesses dias de feriado, com horas livres para serem bem gastas, me deu de ficar ali. - Mãe, cadê a rede? Foi preciso empurrar a mesa de cortar tecido e tirar coisas penduradas nos ganchos para esticá-la. Ela me trouxe uma almofada, um lençol com cheiro gostoso e me deixou só.

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Reparação

O ódio pode nos tornar impulsivos, violentos e vingativos, como um bandido de cinema. Mas, a mesma personalidade pode se fazer terna, como um avô sereno que planta lírios. Quem me fez pensar sobre isso foi Clint Eastwood. No filme “A mula”, ele atua, produz e dirige para contar a história, baseada em fatos reais, de um idoso que se tornou transportador de drogas. Fracassado nos negócios e abandonado, como mau pai e mau marido, ele passa a servir a um cartel.

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Carnaval

“Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”, foi o que Chico escreveu. Pois vou fazer assim: vou guardar o carnaval para quando os dias cinza chegarem. Quando tudo estiver aborrecido, quero me lembrar desse espírito folião. Redimido debaixo de sol ou de chuva, sem queixas. Quando me enraizar nas dificuldades, paralisada, quero me lembrar da criança voando junto com a serpentina, do giro leve em espaço apertado.

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Tecno

1 ano – Na cadeirinha de refeição, brinca com um tablet e abre a boca sem olhar para a comida, oferecida por um adulto apressado. 2 anos – É entretida por vídeos para conseguir dormir, suportar esperar e tolerar andar de carro. 3 anos – Pequena tirana, manda na TV da casa e é obedecida pelos pais, culpados por trabalharem muito.

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De costas

Fim de um show empolgante de uma banda famosa. O grupo agradece e sai do palco. Eu começo a gritar: -Mais um! Mais um! Ninguém me acompanha. Recolho meu entusiasmo solitário. Olho em volta surpresa. Será que as outras pessoas não viram e ouviram o mesmo que eu? Antes que eu entendesse, elas já deram de ombros e começaram a se dispersar. Quis imaginar que era um fenômeno isolado de um público muito específico. Pois, neste fim de semana, aconteceu de novo.

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Raízes

Temos habitado a superfície das coisas. Enquanto cresce o imenso terreno da informação, vamos, feito planta rasteira, sem produzir flor ou lançar semente, alastrando na mesmice. Mas, de vez em quando, alguma força convoca para a origem e, então, somos capazes de visitar a essência. Nos últimos dias, dois fenômenos da internet (quem diria!) promoveram esse encontro.

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Ordinária

Há em mim algo do assassino, porque, às vezes, meu controle também falha. Há em mim algo do pedinte, porque também sou faminta de compreensão. Há em mim algo da criança birrenta, porque também recuso o que me contraria. Há em mim algo da puta na esquina, porque também negocio com o desejo alheio.

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