Aventureiros

Aventureiros

Reparei em um grupo de homens muito parecidos recentemente. Eles não se conhecem e há boa diferença de idade entre eles, mas algumas semelhanças no comportamento me chamaram atenção.

São profissionais dos números, daqueles que colocam três dígitos depois das vírgulas. Inteligentes e bem-sucedidos na área de exatas, são organizados e introspectivos.

Nos ambientes coorporativos em que atuam, mantêm a discrição, mas despertam a curiosidade por uma característica instigante: são aventureiros. Suas fotos de perfil em aplicativos e redes sociais mostram seus feitos em bicicletas, em alto mar e pendurados em montanhas.

O contato de perto com a natureza parece, à primeira vista, contrastante com a rotina de trabalho controlada em planilhas de excel. Imaginei então que, dentro desses homens de rigoroso planejamento estratégico, haveria uma outra personalidade, muito mais livre. Mas essa é uma fantasia errada que eu tinha sobre os adeptos de esportes radicais.

Nem sempre quem pratica essas atividades é alguém que gosta de viver surpresas. A relação com a aventura pode não ser de risco. Pelo contrário, pode ser de grande controle. A preparação para uma trilha, uma escalada ou um mergulho não é para amadores. É para sistemáticos. Exige disciplina, atenção aos detalhes, gestão perfeita dos suprimentos. Quanto tempo e dinheiro investidos no equipamento certo, quanto sacrifício físico para chegar ao domínio do corpo…

Então notei que havia outra coisa em comum entre esses aventureiros: a contenção dos afetos. Eles odeiam o improviso, por isso podem ficar mais confortáveis na solidão do que na incerteza das relações. Para algumas pessoas, parece mais seguro estar no mato, no deserto, em picos de ar rarefeito do que no mar das gentes. É como se pudessem, no controle dos ambientes externos hostis, garantir distância das tempestades emocionais.

Um desses homens me contou há pouco que foi surpreendido por uma grande paixão e confessou que, desde a adolescência, não se permitia uma entrega assim. Admitiu que esse parece um desafio muito maior do que todos os outros que estão em seu currículo de aventureiro internacional. Fiquei feliz. Liberdade se conquista por dentro, trilhando o percurso dos nossos próprios medos.

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