Barragem

Barragem

Ei, Filha. Que bom que vocês chegaram bem. Aproveite a viagem. Passeie no sol, passeie na lua. Esqueça o site do Sisu. Segunda-feira você faz a inscrição e pronto.

Sei que você está ansiosa para entrar na faculdade de Direito. Sei que o Direito Ambiental se tornou sua meta, depois que você fez o curso técnico em meio ambiente. Mas, veja bem, uma nova barragem de rejeitos se rompeu hoje.

As fotos mostram as casas afogadas no barro, só os telhados de fora. A gente mal consegue supor vida embaixo daquela onda de sujeira.

Mas havia. Um varal com roupa estendida, uma horta cultivada com cuidado, um cachorro que dormia no quintal. E gente! Machucada, arrastada no espanto. Centenas de desaparecidos. Imagino os trabalhadores, satisfeitos, vendo a semana chegar ao fim, agora vítimas de tantas omissões.

De novo a mesma empresa, que ainda não respondeu pela maior tragédia ambiental do país há três anos. A mesma empresa detentora da mais alta tecnologia do mundo, mas que não é utilizada aqui. De lá pra cá, não mudou a lei, não mudaram as regras de segurança e nada muda.

Que repetição perversa. Você ainda era um bebê quando eu, como repórter, cobri um acidente semelhante em Macacos, que manchou de morte o córrego de água fresca.

Também já ouvi a tosse seca dos empregados das mineradoras, com os pulmões engasgados de resíduos e os olhos escuros como cavernas.

Resíduos. É que nos sobra da exportação que cresce a cada ano. Negócio calculado em toneladas e milhões. Interesses grandiosos demais para o acanhamento das comunidades. Brutos demais para passarinhos, árvores e nascentes.

Lembro de Carlos Drummond e, nessa hora, gostaria de, como ele disse, ter ferro na alma. Gritar pelo respeito à vida.

Olha, aproveite os dias de folga. Semana que vem começa o estágio. Você vai se juntar a outras pessoas que estão há tanto tempo nessa luta. Descanse, porque a caminhada vai ser longa e muitas vezes vai ameaçar soterrar seus sonhos.

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