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Quando eu era menina, morei numa casa coberta de hera.

Gostava de apoiar o corpo na superfície amortecida pela planta.

Pensava que os ramos eram mãos com vontade própria, que as raízes engordavam mastigando o cimento da fachada. E imaginava os exércitos de bichos escondidos na folhagem.

Eram paredes que respiravam.

Nos últimos tempos, voltei a pensar em trepadeiras. Mas sem prazer.

Procuro espécies capazes de esconder uma espiral de arame farpado, que pretendo colocar em cima do meu muro. Um tipo de folhagem perfumada ou florida, que me faça esquecer o encarceramento voluntário.

Então, o trançado dos galhos pode criar uma sombra suave para que eu não veja a sol pleno a separação entre mim e os outros.

A planta viçosa pode dar aparência de aconchego às minhas trincheiras. Revestir de verde delicado a hostilidade que nos separa.

Não quero que alguém se corte. É só uma cerca viva. Porém, ainda é uma cerca. Tão agressiva quanto a de um campo de concentração.

A gente poda a evidência, molda o discurso. Mas a terrível desigualdade cresce em novas e velhas formas. E não há paisagismo capaz de transformar cipós asfixiantes em videiras generosas.

Do lado de fora do muro, há tantos. Há o homem que apontou uma escopeta para minha melhor amiga.

Do lado de dentro, estou eu, colocando o amaciante mais cheiroso na roupa dos meus filhos.

Não há como nos reunirmos. E também não há como nos separarmos.

Gostaria que minha proteção não fosse violência contra eles. Que meu pouco conforto não fosse tão cruel para tantos.

Quem dera pudéssemos cultivar os mesmos jardins.

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