Ciclo

Ciclo

Os fãs já lotaram os cinemas e levaram “O Rei Leão” ao topo das bilheterias. Acho que já posso falar sobre o filme sem ser acusada de spoiler. Afinal, a versão em cartaz é uma refilmagem da mesma história lançada na década de 90 e há poucas surpresas no roteiro, exceto por alguns detalhes. E foi um desses detalhes que me encantou, uma metáfora, que não aparecia no filme original.

Vou explicar. O herói do filme é o leão Simba, que encontra os melhores amigos do mundo: Timão (um suricato) e Pumba (um javali). Essa dupla ensina a ele uma filosofia de vida contida na expressão africana “Hakuna Matata”, que significa “nada de preocupações”.

Timão e Pumba tentam convencer o leão sobre as vantagens de se esquecer os problemas, e é nesse diálogo que aparece a novidade da atual versão. Simba aprendeu que a vida é um ciclo, em que todos têm um papel importante, e não consegue entender bem a falta de compromisso dos amigos. Ele pergunta:

– Mas e o ciclo?

A dupla responde, dando risada:

– Não há ciclo. A vida é uma linha reta, sem nenhum sentido.

Aí está a nova metáfora: a linha reta. Aquela que representa a existência de cada ser vivo como uma trajetória independente e desconectada. O cumprimento de um destino sem objetivo maior. Uma aleatória sucessão de acontecimentos, sobre os quais não vale a pena pensar ou tentar interferir.

O filme se desenrola, o leão experimenta a doce alienação do Hakuna Matata, até que a responsabilidade o chama. Ele percebe que não pode viver em negação e terá que assumir seu papel. Simba parte e deixa para trás os amigos e o paraíso de não ter culpa e de não tomar parte em vicissitudes e soluções.

Mas, então, Timão e Pumba demonstram porque são os melhores amigos do mundo. Vão ao encontro de Simba, que se surpreende:

– Mas e a linha reta!?

Eles respondem:

– Talvez ela faça alguma curva, às vezes…

Puxa, nessa hora, quase chorei no cinema!

Sim! A vida faz curva quando vamos em direção ao outro. Por amizade, por empatia, por solidariedade. A vida deixa de ser como retas que nunca se tocam quando nossos medos e esperanças convergem. A vida faz sentido quando podemos dividir alguma coletividade.

Saí da sessão pensando em ciclos, círculos, curvas e outras ideias sinuosas. Então, uma palavra se desenhou dentro de mim: mútuo. Tudo o que é mútuo nos salva de sermos meras linhas paralelas e indiferentes riscando a existência.

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