Delicadeza

Delicadeza

Amanheci com olhos de procurar belezas. Queria encontrar cenas que me salvassem do pessimismo imposto pela realidade dos noticiários.

Reparei na pisada do gato preto desfilando cuidadoso entre pincéis e batons e na desorganização sedutora das rendas dentro da gaveta.

Atentei para a cantoria do pedreiro lá fora, que madrugou na obra. Notei com prazer a risada escandalosa da minha vizinha, que faz parecer que todo dia é fim de semana.

Quando saí de casa, percebi que a primavera havia se estendido na calçada, coberta de flores amarelas da sibipuruna. Pensei que as árvores, assim como as pessoas, quando cultivadas, correspondem ao carinho.

No metrô havia um pai com um bebê no colo. Cada gesto dele, de alisar a cabeça da criança ou ajeitar a manta, fazia correr uma brisa no meio do tumulto.

O hippie na calçada não vendia artesanato algum, mas dava de graça muitos sorrisos e bons dias.

Cheguei ao trabalho e imaginei que seriam, então, 8 horas de sufocante aridez.

No meio do expediente, tocou o telefone. Ligação de casa. Era minha filha de 8 anos. Prendi a respiração, esperando um daqueles problemas que eu tento, quase sempre inutilmente, resolver à distância: o livro que ela não encontra, a discussão de irmãos, o cabelo que não obedece. Mas o dilema do dia era outro:

– Mãe, não tenho dinheiro para o lanche.

Eu, antes de me exasperar, me lembrei da nota de 10 reais que pus na bolsinha dela.

– Mas eu te dei dinheiro a mais ontem. Dava para os dois dias!

– É, dava.  Mas eu coloquei o troco num envelope com uma cartinha para o Miguel. Dei de presente de aniversário para o meu irmão.

Pronto. A delicadeza soprou no ar condicionado do escritório.

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