Demolição

Demolição

Até ontem estava bem lá em frente. A casa antiga, em vermelho desbotado, com uma eterna placa de vende-se. Mas, ao abrir o portão nessa manhã, havia uma claridade atravessando a rua. Um lote aberto por onde se via até o quarteirão acima do meu. A demolição foi feita em um único dia.

Parei na calçada diante da novidade. Um senhor idoso de chapéu se aproximou, sem pressa e sem surpresa, e me disse:

– A gente hoje não pode se basear no que viu ontem.

Fui embora com a frase dele me seguindo, pensando em como nossos olhos se acostumam a procurar pelo conhecido.

Afinal, como lidar com a incerteza? Como suportar a impermanência? O cérebro persegue associações com experiências anteriores. O coração quer voltar a um lugar de antes.

Nos relacionamentos, queremos a solidez de tijolos de concreto. Erguemos paredes, usando palavras como “tudo” e “sempre” e fazemos abrigo com fantasias.

Estamos em busca de um cimento qualquer: religião, ciência, política. Discursos, sempre sujeitos a serem reescritos. Verdades muito mais permeáveis a interesses pessoais do que gostaríamos.

Mais cedo ou mais tarde, as trincas aparecem, na fachada ou nos cômodos mais íntimos da alma. Surge raiva de quem amamos, desconforto onde havia sossego, dúvida sobre o que antes era certo. Não encontramos um batente sólido onde pendurar a rede e descansar de vez. E, se resistimos à mudança, a vida nos põe porta afora.

As demolições são certas e rápidas. Acontecem de uma hora para a outra e atingem de forma destruidora as personalidades mais rígidas.

Então, para que tanto esforço de construção, se nossa natureza é o movimento e não o pouso? De que vale tanto muro e contenção, quando não poderemos fugir do fato de que somos vulneráveis e transitórios?

O velhinho de chapéu na rua parecia já ter entendido. Não devemos apego ao ontem. É no hoje que a vida precisa fazer sentido. Todo dia.

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