Escravidão

Escravidão

Tantos afazeres por fazer.

Pouca escolha, muitas obrigações.

Bom seria andar de bicicleta todo fim de semana, mas os pneus murcham até que eu encontre oportunidade.

Os livros ficam na cabeceira, fechados por vários dias.

E reunir a família toda para um programa é quase um acontecimento.

Penso que todo apressado foi também apreçado. Recebeu um preço e entregou seu tempo.

Só não sei exatamente quando foi que coloquei minha assinatura nesse contrato.

Desconfio que não houve escolha. Contrato de adesão, daqueles unilaterais. Nasceu no sistema, é propriedade do sistema.

Seria possível escapar? Fundar uma comunidade? Viver numa ecovila?

Não consigo enxergar essa porta e, por isso, forço para abrir janelas.

Faço eventualmente as coisas que eu gostaria de fazer sempre. É pouco, mas ajuda a não me esquecer das capacidades do meu corpo, da minha mente e do meu coração.

Na maior parte do tempo, estou na tarefa prática da vida, procurando encontrar o fio da meada. Mas, por alguns momentos, preciso me misturar ao novelo, me encantar pela bagunça humana e dela tomar parte.

Assim, roubo horas de razão para me entregar ao prazer. Subverto as imposições, fugindo em direção a pessoas e lugares habitados pela liberdade.

E, mesmo quando meu corpo não pode se ausentar, escapo. Ponho música bem alta e canto, enquanto coloco a roupa para lavar e desembolo setecentos pares de meias (acho que tenho centopeias, e não filhos).

Nessas horas, digo ao senhor invisível, dono dos meus dias:

– Você manda no meu despertador, manipula minha responsabilidade, consome meus resultados. Mas a minha alma não se aprisiona!

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