Frágil

Frágil

– Fale para a Érica vir me visitar. Depois que eu morrer, não precisa mais não.

Recebi esse recado faz algumas semanas. Mas hoje, ao me lembrar dele, deu vontade de chorar. Mas por que só hoje?

Vocês também escutam dentro de vocês? Vozes que, em alguns dias, emergem grudentas e vão puxando todos os pensamentos para a escuridão de dentro?

Ao escrever essa frase penso no petróleo espalhado nas praias nordestinas. Será culpa dessas imagens? Ou de ter lido ainda cedo sobre a mistura de óleo diesel e gasolina comprada numa vaquinha de empresários para colocar fogo na floresta amazônica?

A lama nos rios, a mentira nos argumentos, tudo isso me esfola. Mas – que grande pequeneza! – o que me põe em carne viva mesmo são meus encarquilhados medos egoístas. “Retirada de fragmento mamário por agulha grossa”. Exame maldito! (Bendito, desculpem-me as senhoras razão científica e convicção espiritual).

Hoje quase despistei esse diabo de fragilidade. Senti vontade de escrever sobre a pessoa querida que me cobrou uma visita. Se eu o fizesse, seria uma linda homenagem. No tempo de uma corrida de uber, todo o texto ficou pronto na minha cabeça. Faria, por meio dela, um elogio aos vulneráveis e me perdoaria da minha própria fraqueza. Ah, que coisa mais feia! Então, eu receberia curtidas porque projetei minha fragilidade no outro.

Contar a história dos frágeis – o que me serviu tão bem nos tempos de repórter – me concilia que essa parte tão carente de mim.

Será que nós, de estilo cuidador, não estamos fazendo isso todo o tempo? Derramando sobre o outro nossos olhares compadecidos, para não colocar os olhos na nossa própria angústia? Nós, que estamos nos consultórios, ativistas, voluntários, defensores dos animais?

Não vou mentir. Minha pele não me defende. Há dias que me misturo a tudo que dói. Angústia solitária que não posso expressar sem medo de ser julgada exagerada e louca ou sem julgar a mim mesma como ingrata.

Vou fazer a visita que estou devendo. Pelo menos a fragilidade do outro eu posso supor que consigo consolar.

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