Frustração

Frustração

Ele deu sinais de que vocês não combinavam. Você desconfiou que ela estava em outra. Mas a gente inventa esperanças, imagina coisas e se frustra.

Você nem tinha certeza se queria mesmo aquele curso ou aquele emprego. Mas aí, foi descobrindo vantagens, se apegando à possibilidade e… não conseguiu.

Tempo demais se preparando para a prova, planejando a viagem, sonhando com um projeto… em vão.

Que tombo! Vontade de nem tocar no assunto, pular a página e esquecer logo a perda. Frustração é esse machucado abstrato, causado pela fumaça do que nem chegou a ser. Como aqueles esfolados na palma da mão, que mal se veem, mas ardem.

Não é à toa que tanta gente prefere não se entusiasmar, não aspirar, não se entregar ao querer. É preciso ser resistente para suportar um resultado frustrante e, principalmente, ser consciente para não ampliar os estragos.

Deixe as escoriações doerem lá na mão, órgão de choque, anteparo. Não traga a ferida para dentro da alma, arranhando a confiança e as convicções. Nada de dizer: sou péssimo, não vou tentar nunca mais, sempre me dou mal. Se houver o que aprender com o episódio, ótimo. Mas, às vezes, não há do que se arrepender. Nem tudo depende de você. Pode ser um evento externo, fora do controle. Paciência.

Eu não posso aconselhar alguém a não criar expectativas, como fazem os budistas, porque eu mesma não sou capaz. Aliás, sinto que a capacidade de apostar em alguma boa perspectiva é sinal de saúde. Um dos sintomas da depressão é o pessimismo fatalista. Acho que, quando uma intenção se move, ela vai levando as fantasias na mesma direção. O máximo que consigo é tentar segurar o tamanho delas. Se tudo der errado, a queda é menor.

Mas, se a queda for grande também, a gente rasteja feito minhoca, chora na cama que é lugar quente, concede um tempo justo para a tristeza e pronto. Com o tempo, o esfolado melhora, a pele engrossa e constatamos que desejar não arranca pedaço – pelo menos, não definitivamente.

Comentários