Gaiolas

Gaiolas

A imagem era um contraste. Na entrada de galpões imensos de siderurgia, onde funcionavam fornos a mais de mil graus de temperatura, ficavam as pequenas gaiolas com um canarinho dentro. Os bichinhos foram parar no ambiente industrial para garantir a segurança. Em caso de vazamento de gases perigosos, eles, como são mais frágeis que os humanos, eram rapidamente intoxicados e seu canto interrompido servia de alarme para os operários.

Conheci esse sistema há cerca de 20 anos e quero acreditar que hoje os pássaros já foram substituídos por equipamentos. Porém, me lembrei dessa cena ao pensar no funcionamento de algumas famílias.

Há lares em que um único membro vira o guardião da sanidade. O ambiente é nocivo, as relações são doentes, mas ninguém quer tratar de fazer os reparos. Deixam para o passarinho da casa a missão de dar o alerta quando a vida se torna insurportavelmente tóxica. É cômodo, já que se poupam de reflexões, de medir as próprias palavras e de vigiar as atitudes.

A pessoa-passarinho pode até se envaidecer com essa tarefa, afinal, confiam nela e vão prestar atenção ao seu canto. Pode se sentir nobre, responsável e sensata. Mas, ela também pode pagar com a própria saúde ou até com a própria vida. Muitas vezes, por exemplo, dependentes químicos e suicidas não são as ovelhas negras, e sim os canários sensíveis da família, denunciando que ali o ar é insalubre.

Vejo pessoas que nem cantam mais, caindo dos poleiros para proteger quem não assume suas responsabilidades. Custa a esses passarinhos enxergar que vão precisar abandonar o posto de vigias se quiserem salvar a si mesmos. O problema é que, depois de muitos anos numa gaiola, eles chegam a acreditar que voar lá para fora é um risco maior do que permanecer nas relações venenosas.

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